Hoje, 3 de Maio | O livro que dá vida a quem morreu
Hoje, 3 de Maio | O livro que dá vida a quem morreu

Hoje, 3 de Maio | O livro que dá vida a quem morreu

A Biblioteca Municipal de Lagos recebe, no dia 13 de junho, a escritora Patrícia Portela, para a apresentação de “Hoje, 3 de Maio”. Livro escrito a partir da obra “Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808”, de Francisco José de Goya y Lucientes, o romance vai à procura da humanidade em tempos de guerra.

Não foi a primeira vez que Patrícia Portela olhou para um quadro e decidiu escrever um livro. Já o tinha feito com outro pintor, numa obra que ainda está na gaveta. Com Francisco José de Goya y Lucientes, a história foi diferente. “Tenho uma paixão por esse quadro”, diz, sobre uma obra que faz parte da história da arte e da humanidade.

Sobre o quadro do pintor espanhol pouco se sabe. “É um quadro misteriosíssimo e poderosíssimo. Queria contar a história daquelas pessoas todas no quadro. Ninguém sabe quem são.” Goya pinta civis à espera de serem fuzilados e homens sem rosto com armas. “Morreu muita gente a defender a coroa. Quem são os heróis? É o soldado anónimo, é o herói anónimo, é o povo anónimo, não é? Eu tinha muita curiosidade de pegar neste quadro.”

“Hoje, 3 de Maio” não é um trabalho de pesquisa histórica, até porque não existem elementos que permitam descobrir a identidade das pessoas retratadas por Goya. Trata-se, portanto, de um exercício de imaginação e, se assim o entendermos, de dignificação de pessoas que morreram no anonimato. “Falamos sempre em público, em multidão e em povo como se as pessoas fossem todas iguais, não é? Como se fossem uma massa uniforme”, reflete Patrícia Portela.

O livro dá vida às pessoas à espera de serem fuziladas. “Umas estão com medo, outras têm coragem, outras estão com os olhos tapados. Há homens e mulheres. Comecei a pensar quem seriam estas pessoas e como é que chegaram ali. Foi um incidente muito rápido.” No quadro, Goya deixou para memória futura a execução de espanhóis que se insurgiram contra a invasão das tropas napoleónicas. “As pessoas foram apanhadas nas situações mais inacreditáveis e algumas, de facto, tinham participado na insurreição, mas outras não.” É o que acontece em qualquer guerra, sublinha a escritora, numa inevitável transposição para a realidade.

Guerra sem paz

“Uma grande parte do mundo vive na aflição permanente” que a guerra traz. “Quem sofre mesmo com as guerras são os civis. Não sabem se podem dormir, descansar, não sabem quando é que a guerra vai acabar.” Goya pintou uma realidade que tem hoje mais de 200 anos, mas o mundo não mudou para melhor no que toca ao belicismo. Com o livro, Patrícia Portela quis abordar a “aflição permanente” da guerra: uma parte do mundo vive nesse estado e a outra metade faz de conta que a aflição não existe.

“Estamos sempre naquele momento. Continuamos naquele momento em que há alguém a fuzilar alguém. E nós, portanto, ou somos os que fuzilam ou somos os que são fuzilados”, declara a autora. “Quem é que nós queremos ser? Quem é que nós somos? Não há pessoas neutras, não há pessoas fora do quadro”, lança a escritora. “Se estamos com capacidade de ver um quadro, de olhar para um quadro, é porque temos tempo para o fazer.” Não estamos a morrer, temos uma segurança que está íntima e inevitavelmente relacionada com o perigo em que os outros se encontram, defende.

A obra de Patrícia Portela é, deste modo, uma reflexão sobre a Europa que hoje conhecemos, uma ideia que construímos, “cheia de valores éticos e morais, mas também cheia de hipocrisia”, uma contradição que já existia no tempo de Napoleão, que mais não quis do que substituir um império por outro. “No fundo, não saímos ainda dessa ideia de Europa: uns conquistam outros, uns comandam outros, uns governam outros.”

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