É uma tradição tão antiga que não se sabe, com precisão histórica, como terá começado. O mês que agora termina batiza uns bonecos, feitos de palha e trapos, que dão as boas-vindas à primavera. As Maias e os Maios são algarvios, mas viajaram para outras paragens. Para bem longe foi também o estrangeiro que, em 1600, fugiu com as joias da cidade.
Maias se forem mulheres; Maios se representarem homens. O mês que está prestes a despedir-se começa com uma tradição cíclica, cuja origem se perde no tempo: fazem-se bonecos de trapos, palha e outros materiais simples que são colocados à vista de todos para celebrar o novo momento do ano.
“Esta tradição está relacionada com a celebração da chegada da primavera e do fim do inverno, com o despertar da natureza para um novo ciclo”, explica o historiador Artur de Jesus. “Está também associada à ruralidade, ao desejo de uma nova época de fertilidade nos campos, com boas colheitas e abundância.”
Os bonecos são colocados em quintais, em degraus à entrada das casas, nas janelas e nos terraços, mas também em espaços públicos, como ruas e praças. “Podem estar isolados – um boneco sozinho –, ou formarem conjuntos e composições mais ou menos elaboradas, de acordo com a criatividade e a imaginação de quem os faz. Por norma, eram enfeitados da noite de 30 de abril para 1 de maio”, acrescenta.
Além da função de acolhimento da primavera, as Maias e os Maios “constituem também uma espécie de dramatização popular do quotidiano”. Têm uma dimensão de crítica e de sátira social, e também algum humor. “Estes bonecos são ainda associados a quadras, poemas e narrativas de carácter popular que são colocadas ao pé deles, para quem passa parar e ler.”
Artur de Jesus refere que a tradição algarvia não ficou pelo continente: seguiu para a Madeira e para os Açores, nomeadamente para as ilhas de Santa Maria, São Miguel, São Jorge, Graciosa e Terceira.
“Não sabemos a origem desta tradição, mas sabemos que está radicada na Antiguidade Clássica”, nota o historiador. “No mundo clássico, a questão da primavera era extremamente importante. Era o encerramento desse ciclo do inverno, quase de morte, para renascer uma nova vida na primavera, com novas cores, com novas possibilidades e cultos ligados à fertilidade.”
Homem a cavalo em fuga
O mês de maio está ainda associado a um curioso ritual que, há alguns séculos, se celebrava em Lagos. “Também não sabemos as origens dessa tradição. Mas sabemos que, no ano de 1600, havia o costume de vestir um estrangeiro com as vestes mais ricas, cobri-lo de ouro, joias e outras riquezas. Quando esse estrangeiro estava preparado dessa forma era montado no melhor cavalo que havia na cidade e passeado por Lagos”, conta Artur de Jesus, destacando que existe um registo sobre esta festividade.
“À frente do estrangeiro a cavalo iam homens a tocar flautas e mulheres que cantavam e dançavam, numa espécie de cortejo.” O costume durou em Lagos até que houve um homem que decidiu fugir com o cavalo e com as riquezas sem que o conseguissem alcançar. “E assim acabou-se a tradição e gerou-se um outro dito popular: quando terminava o mês de abril, nunca se referia o mês de maio e dizia-se sempre que era ‘o mês que há de vir’, precisamente pela vergonha do estrangeiro ter fugido com as riquezas da cidade e com o cavalo”, remata o historiador.
Já as Maias e os Maios mantiveram-se ao longo dos séculos. Despedem-se dentro de dias, para regressarem para o ano, no “mês que há de vir”.





