A Biblioteca Municipal de Lagos projeta, no dia 15 de maio, o documentário “Por ti, Portugal, eu juro!”. Inserido no ciclo “Fragmentos de Abril: Cinema para pensar a Revolução”, o trabalho de Sofia da Palma Rodrigues e Diogo Cardoso foi ao encontro da história dos Comandos Africanos da Guiné-Bissau. Lutaram pela metrópole durante a Guerra Colonial, mas foram esquecidos quando os portugueses vieram embora.
Há histórias que resultam de acasos e esta é uma delas. A jornalista Sofia da Palma Rodrigues viveu durante uns tempos na Guiné-Bissau e conheceu um jovem, filho de um comando africano, que lhe contou que andava há anos a bater à porta da Embaixada de Portugal em Bissau, na tentativa de que o pai fosse reconhecido como comando. O antigo soldado já tinha morrido, mas a família pretendia ter direito à cidadania portuguesa, e às pensões de reforma e invalidez que o Estado português prometera, muitos anos antes.
Sofia da Palma Rodrigues não se esqueceu do que ouviu, mas só anos mais tarde – quando decidiu fazer um doutoramento – é que pegou no assunto. Rapidamente percebeu que merecia ser abordado de uma perspetiva jornalística. Levou-o para a redação da Divergente, revista da qual é cofundadora. “Abraçámos todos o projeto e começámos a fazer uma investigação jornalística, que é diferente de um trabalho académico, para podermos contar esta história com as suas diferentes camadas.” E assim nasceu a reportagem multimédia que deu origem ao filme “Por ti, Portugal, eu juro!”.
De regresso à Guiné-Bissau, a principal dificuldade foi encontrar nomes para as entrevistas. O que, por norma, é mais complicado neste tipo de temas, no país tornou-se simples. “A tradição oral está espalhada no dia a dia das pessoas. Conversar, ter tempo para o outro, faz parte do quotidiano. Diria que é o país mais fácil onde estive a trabalhar como jornalista, porque as pessoas estão realmente disponíveis para conversar”, contextualiza a jornalista.
A lista de entrevistados surgiu não por estar disponível em arquivos oficiais, mas porque havia um comando que a tinha no seu arquivo pessoal. A partir daí, começaram as conversas. “Tínhamos um guião que facilmente foi embrulhado e posto na gaveta, porque foram entrevistas de horas, muitas delas com mais de um dia. O guião servia apenas para um ou outro tema em que queríamos tocar, mas as pessoas acabavam por ser elas a comandar o rumo da história. Isso foi muito interessante, porque nos permitiu chegar a camadas onde nunca chegaríamos se tivéssemos ido lá apenas pela planilha do historiador.”
Memórias más, memórias boas
A equipa falou com homens que lutaram por uma pátria que acreditavam ser a sua. Durante a Guerra Colonial, houve milhares de africanos que arriscaram a vida por Portugal e que, terminado o conflito, foram abandonados à sua sorte. O grupo que protagoniza o documentário fazia parte da única tropa de elite do Exército português integralmente constituída por pessoas negras. Eram elas que iam à frente no campo de batalha. O Estado português prometeu-lhes pensões de sangue e invalidez que nunca chegaram a ser atribuídas.
“As primeiras entrevistas foram duras, mas estas pessoas nunca se puseram no papel de vítimas sem ação”, sublinha Sofia da Palma Rodrigues. “Estas pessoas foram vítimas de um processo histórico, mas tinham uma agenda, uma ação, e tentaram, de todas as formas que conseguiam, fazer valer os seus direitos.” Ainda assim, falar pela primeira vez sobre um passado tão distante (com consequências ainda tão presentes) foi “quase uma catarse”. De coisas más e boas: além do sofrimento da guerra e dos posteriores sentimentos de abandono e traição, houve espaço para recordar a juventude, a melhor fase da vida.
“Apesar de uma guerra e de terem sido deixadas para trás, são recordados momentos com saudade, de alegria e de partilha com os colegas, e isso é muito interessante: as coisas nunca são só uma coisa ou outra”, observa. “De um cenário de guerra, de morte e de violência, muito do que se guarda é a música que se cantava, a cervejinha que se partilhava, as conversas que se tinham com os colegas e as miúdas que gostavam da farda que estes homens envergavam.” São as “pequenas histórias dentro da grande narrativa” que interessam à Divergente e que fazem com que as grandes histórias sejam reais.
Filme muito bem recebido em festivais, com várias nomeações e prémios (incluindo do público), o documentário chega agora a Lagos com a presença de Diogo Cardoso. Para Sofia da Palma Rodrigues, a presença em salas de menores dimensões reveste-se de particular relevância. “Não queremos trabalhar para o nosso umbigo. Queremos que o trabalho que fazemos e que as histórias que contamos cheguem ao maior número de pessoas e ao público mais heterogéneo possível.”
Espaços com audiências mais pequenas possibilitam, muitas vezes, resultados mais interessantes. “As conversas que ali se geram são muito menos formatadas”, diz. “Pessoalmente, gosto muito mais dos debates e de mostrar este filme fora dos grandes centros urbanos e fora dos grandes festivais do que propriamente nesses espaços.”



