O maestro e compositor Martim Sousa Tavares sobe ao palco do Centro Cultural de Lagos, no dia 23 de maio, para um espetáculo incomum. Em “Ponto de Fuga” convergem artes e memórias, unidas por uma narrativa que conduz à importância das pessoas. Ao piano junta-se o acordeão de João Barradas.
É um espetáculo autobiográfico, um convite ao público para uma viagem em que, no mesmo mapa, se juntam artes diversas, memórias, pessoas. “Ponto de Fuga” não resulta de uma construção convencional; foge propositadamente ao estereótipo.
“Descrevo-o como um espetáculo narrativo que tem muitas artes diferentes: música ao vivo, mas que não faz disso um concerto, de facto. Tem poesia, tem pintura, tem cinema, tem várias coisas, mas é conduzido por este fio narrativo que vou desenrolando”, explica Martim Sousa Tavares. “Tem um formato de stand-up, embora não seja um espetáculo de comédia, mas estamos a seguir uma narrativa que é contada por uma só pessoa.”
Nesta narrativa, o músico e comunicador faz um exercício de perspetiva: é uma travessia pelas suas artes e pessoas. Neto da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e do político Francisco Sousa Tavares, filho dos jornalistas e escritores Miguel Sousa Tavares e Laurinda Alves, tem um legado familiar que podia ser um peso – mas não é, antes pelo contrário. “Isso é abordado no espetáculo. Este é um espetáculo sobre as pessoas e o ponto de fuga que promovo, a ideia de perspetiva, de tridimensionalidade, de acrescentar à nossa própria perspetiva, são as pessoas”, declara.
“É uma forma de tributo e de lembrança sobre a importância que temos uns para os outros e de como todos devemos a muita gente. E somos todos filhos de alguém, tanto eu como outra pessoa qualquer que vá assistir. Todos devemos muito a muita gente e, portanto, faço essa abordagem genealógica.” O público de Lagos, adianta, vai ver imagens da avó na cidade. “São filmagens dos anos 60 num passeio às grutas. A ligação dela à cidade vai ser celebrada dessa forma, mas vou também abordar outras pessoas que me construíram e constroem, algumas das quais conheci e outras não.” É uma forma de mostrar “família, professores, mestres, ídolos, inspirações, a forma como todos, de facto, somos construídos uns pelos outros”. O espetáculo é “fresco e leve”, mas carrega “esta mensagem profunda de humanismo: nós só vamos ser boas pessoas e felizes se dermos valor uns aos outros”.
Da música improvável
Desde 2023 que Martim Sousa Tavares trabalha com a Orquestra do Algarve: foi maestro titular da formação até ao ano passado e ocupa agora o cargo de diretor artístico. “O público de Lagos e do Algarve em geral já conhece a minha forma de estar”, diz, sobre a abordagem particular que tem à música erudita. “Tento retirar o pó e o peso sem retirar o brilho e sem retirar a essência. O que deve ser corrigido não é o conteúdo, não é a mensagem, não é a beleza – continuam válidos e vivos – é simplesmente a embalagem. Muitas vezes, esta música ainda se vê como algo para as elites e acho que isso está errado. Tudo aquilo que é belo tem de ser para todos.”
Compositor, arranjador, eclético na música que faz e promove, convidou para este “Ponto de Fuga” o acordeonista João Barradas, “um músico incrível e também uma pessoa incrível”. Vencedor do prémio de Melhor Álbum de Jazz na mais recente edição dos prémios PLAY, Barradas é um músico “com um reconhecimento enorme não só em Portugal, mas também no estrangeiro, onde tem uma atividade muito intensa”. Cruza o mundo da música clássica, o do jazz e o da improvisação, um exercício que interessa ao maestro e compositor, “porque este é um espetáculo que vai fazer também a apologia dos cruzamentos, do arriscar, do não seguir caminhos pré-definidos”.
Martim Sousa Tavares destaca ainda que “Ponto de Fuga” permite “juntar dois instrumentos improváveis, piano e acordeão, que se complementam muitíssimo – é a beleza a acrescentar à beleza”. O compositor não revela qual é o papel da música no contexto do espetáculo, mas faz-se de música escrita, de obras que o público conhece e que serão reinterpretadas, e ainda de momentos para a improvisação.




