“Os Transparentes” | Do choro ao riso são três tempos
“Os Transparentes” | Do choro ao riso são três tempos

“Os Transparentes” |
Do choro ao riso
são três tempos

O tema não é fácil: afinal, é da invisibilidade humana que se trata. Mas é uma realidade à qual Angola e os angolanos estão habituados, explica a encenadora. “O livro traz esta temática de uma forma muito lírica, quase metafórica, e eu tinha a responsabilidade de trazer este lirismo e esta metáfora para palco”, diz. “Optei por tirar da obra o que me interessava para contar esta história – que acaba por ser mais do que uma história, são várias histórias entrelaçadas.” Com dramaturgia de Marta Dias, a adaptação do texto acompanha algumas personagens da obra de Ondjaki, pela impossibilidade de as ter todas em cena.

Odonato, o nome principal desta história, é um homem que se vai tornando invisível, transparente. “Ao falar sobre as suas questões, sobre as dores que o fazem desaparecer, este homem está a acumular saudades, não só do que já viveu, do passado e dos costumes do passado – fala-se muito disso durante o texto –, mas também saudades já do futuro”, conta Manuela Paulo. “A saudade amarra-o à cidade, mas também é a saudade que está a fazê-lo desaparecer.”

Paradoxalmente, ou talvez não, a literatura e (agora) o teatro fazem com que a transparência de Odonato se torne visível. A personagem não resulta de um exercício de imaginação: há muitos Odonatos em Angola e em todas as latitudes. “É uma história real de tantos homens reais, de tantas pessoas reais de Angola que se vão tornando transparentes para a sociedade. São transparentes por serem pobres. Há imensos transparentes no mundo inteiro.” É sobre esta transparência que importa refletir.

A encenadora conta que, quando lhe perguntaram se “Os Transparentes” são uma comédia ou uma tragédia, ela respondeu: “É Angola, quando fores ver o espetáculo vais perceber”. Angola “é muito isto, passamos do riso ao choro em três tempos e do choro ao riso também”, acrescenta. Há um lado divertido no espetáculo e outro para fazer pensar, e tem sido essa a reação do público. Manuela Paulo sentou-se várias vezes entre quem foi ver a peça e percebeu que conseguiu criar o catálogo de emoções que Ondjaki transmitiu no livro.

Para ver melhor

O que se leva de “Os Transparentes” para casa? Pensarmos sobre a invisibilidade que a sociedade dá a quem aparentemente deixou de ter relevância. “As pessoas não se tornam transparentes – a sociedade torna-as transparentes e elas vão-se anulando. O Odonato foi-se anulando, deixou de trabalhar, não lhe davam trabalho, ele próprio diz que não tem jeito para esquemas e, em Luanda, quem não tem jeito para esquemas não se safa.” O livro foi escrito em 2012, mas não perdeu atualidade. “Já nos cruzámos com imensas pessoas nestas condições e nem as vimos, porque há pessoas que nem vemos, o que é uma pena.” Manuela Paulo espera que o espetáculo nos ajude a ver melhor.

A encenadora acrescentou um epílogo à obra original: o livro termina de uma forma que deixa o leitor a pensar sobre o que terá acontecido a Odonato e aos seus vizinhos. O novo desfecho “é uma mensagem de esperança, um regresso a casa ancestral”, voltar à casa que também é o coração, a muxima de duplo significado em kimbundu, a língua-mãe de Manuela Paulo.

No capítulo da esperança, cabe ainda a necessidade de “conseguirmos estar mais atentos e abraçar os outros, abraçarmos mais a cultura dos outros”. Se isso acontecer, talvez se encontrem “outras formas de viver” e “possamos encontrar esperança “nalgumas questões que poderiam ser trágicas, tristes ou desanimadoras”.

Manuela Paulo foi convidada para encenar um projeto idealizado pela Companhia Cegada no processo de “um conceito que tem vindo a desenvolver que é virar do avesso, dar visibilidade ao invisível”. Este projeto está inserido num ciclo de obras, todas completamente diferentes, mas dentro do mesmo tema. Para a encenadora, “Os Transparentes” representou a possibilidade de pôr em palco uma obra que admira profundamente. A interpretação está a cargo de Anílson Eugénio, Eduarda Oliveira, Kássia Laureano e Kévin Cassule.

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