Em hora e meia não cabe tudo, mas a amostra é representativa do que foi a vida no Algarve durante o Estado Novo para aqueles que não concordavam com o regime. A Biblioteca Municipal de Lagos recebe a historiadora Maria João Raminhos Duarte, no dia 11 de abril, para a conferência “Pela borda fora: A pátria não era para todos – O Algarve dos excluídos”. O título é explicativo: neste país houve um tempo em que pensar em voz alta de forma diferente era um risco com um preço elevado a pagar.
“A conferência versa sobre vários excluídos no Algarve. Dá uma ideia generalizada, com exemplos, daqueles que literalmente foram pela borda fora, desde os militares que eram reviralhistas aos operários das indústrias, passando pelos clandestinos, os presos políticos e os estudantes”, resume a historiadora. “São alguns exemplos de algarvios que tiveram vidas muito interessantes e muito corajosas.”
Terra de chegadas e partidas, longe do centro político, o Algarve não escapou ao omnipresente controlo do regime. “O Estado Novo fez um expurgo que atravessou todos os estratos sociais, todos os grupos profissionais. Em todos houve excluídos pela ditadura, se bem que também de modo diferenciado. A província tem destas coisas”, diz.
A ditadura na província preservou alguns “notáveis que eram do contra”, mas cujo peso social lhes permitiu sobreviver. Em Lagos, exemplifica a historiadora, temos os casos de João Vasco Gracias – “uma figura de referência para toda a oposição republicana no Algarve” – e do arquiteto e antifascista José Veloso. Foram, porém, exceções, numa “zona do país de vigilância muito apertada, território de fuga, onde o PCP chegou a ter um aparelho de fronteira” e uma embarcação destacada.
“O Algarve tem características muito específicas, mas a vigilância foi generalizada, foi intrusiva. Houve despedimento de funcionários públicos e de professores, e jornais censurados. A ditadura, para se manter, teve de criar os seus canais de repressão, com a polícia política, a censura e as prisões políticas, porque de outro modo não sobreviveria 48 anos.”
Pessoas e contextos
Maria João Raminhos Duarte tem um vasto currículo. Estuda a história local e regional algarvia contemporânea e tem trabalho publicado sobre os industriais conserveiros, o movimento operário corticeiro e conserveiro, o regionalismo algarvio, a instituição do Estado Novo, a oposição ao Estado Novo, a comunidade judaica do Algarve, o seu êxodo e relevância no Holocausto, os movimentos femininos, a educação e assistência e a implantação do regime democrático. “Costumo dizer que, em qualquer coisa que pego, dou um pontapé numa pedra e saltam-me algarvios”, conta.
Foi o 25 de abril que permitiu abordar a história além dos grandes nomes. Percebeu-se que “a história de um país não está feita sem a história das suas regiões e que a história local dá um contributo imprescindível à história nacional”. E, entretanto, legitimaram-se as fontes orais e biográficas, que devidamente “contraditadas, verificadas e comparadas” permitem perceber a história das pessoas para lá dos factos oficiais amplamente documentados.
O país faz-se de gente e o método de Maria João Raminhos Duarte consiste na prosopografia, “uma biografia coletiva, sempre com atenção ao contexto e ao movimento social, que são o pano de fundo da narrativa”. O Algarve, “contrariamente ao que se pensa, em todos os sectores – quer da oposição, quer da resistência –, tem estado no primeiro plano da história nacional”. É uma área importante “ao nível da luta das mulheres, da luta dos estudantes, dos presos políticos, dos tarrafalistas”.
Também o 25 de Abril algarvio, longe de Salgueiro Maia e de Lisboa, tem uma história que merece ser contada. No Algarve existiam três quartéis que obedeciam à região militar de Évora: Tavira, Faro e Lagos. O menos relevante de todos eles era Lagos, “extremamente periférico”, local onde “os militares e os soldados só passavam dois meses, para aprenderem a conduzir”.
Apesar da reduzida dimensão de quadros, foram os militares destacados em Lagos que aderiram à revolução, com o então capitão José Glória Alves a comandar as operações do Movimento das Forças Armadas na província. “Há umas peripécias muito engraçadas. Vão tentar aliciar os quartéis de Faro e de Tavira. Em Faro os militares recuaram porque tiveram medo.” Já em Tavira conseguiu-se que se mantivesse neutra. “No próprio quartel de Lagos, durante a noite, há situações muito caricatas”, remata a historiadora.

