18 Months – Ópera sobre (corpos) refugiados | O exercício da humanidade
18 Months – Ópera sobre (corpos) refugiados | O exercício da humanidade

18 Months – Ópera
sobre (corpos) refugiados | O exercício da humanidade

Dezoito meses é o tempo que, para efeitos oficiais, demora a integração de um refugiado numa terra à qual não pertence. Este tempo resume, de certa maneira, o trabalho que o Quarteto Contratempus (QC) apresenta no Centro Cultural de Lagos a 9 de maio. Um ano e meio pode não ser nada ou pode significar a eternidade. Deve, sobretudo, fazer-nos pensar na noção de humanidade.

Para se falar desta produção do QC, é necessário recuar à origem da formação, justifica Teresa Nunes, soprano e diretora artística. A estrutura nasceu na sequência de um grupo de câmara (soprano, clarinete, violoncelo e piano) de alunos da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) do Porto. Sendo Teresa Nunes soprano, “tinha texto para dizer”. Quando os quatro músicos decidiram avançar para a ópera contemporânea, entenderam que deviam apostar em novas criações.

O QC quis ir além da interpretação das obras encomendadas. “Estando a fazer criação própria, podemos escolher as temáticas e o que queremos dizer com estas óperas”, diz a diretora artística. O conceito é, assim, da equipa, o que se traduz num envolvimento ativo.

“Fizemos óperas sobre a sustentabilidade ambiental e a violência contra a mulher. Começámos a pegar em temáticas atuais, porque achámos que a arte pode dizer coisas.” A soprano faz uma ressalva: “Não achamos que a arte possa ensinar, mas sim questionar, e depois cada um retira aquilo que vê. Apresentamos uma ópera, apresentamos questões e camadas. O público vai lá e retira aquilo que lhe interessa, que vê, que sente”.

O tema que deu origem a “18 Months – Ópera sobre (corpos) refugiados” começou a ser trabalhado em 2023, numa altura em que era um assunto muito debatido. “Quisemos perceber o que é um refugiado e o que é um imigrante, quais são as diferenças, porque é que as pessoas têm de se refugiar”, conta Teresa Nunes. “E depois tomámos uma decisão importante: não queremos tornar isto político. Isto é sobre levantar questões e não sobre tomar partidos, porque são questões extremamente complexas.”

Não querer “tomar partido” não é sinónimo de ausência de posicionamento. A ópera e os músicos dentro dela são “claramente” a favor do “sentimento de humanidade que, muitas vezes, não está presente quando falamos de refugiados ou de imigrantes”. Este sentimento é “considerarmos o outro como um ser humano, como uma pessoa que saiu da sua vida para poder ter vida, e olhar para estas pessoas que tiveram de fugir, muitas vezes, à pressa”.

“This was difficult”

O libreto de “18 Months – Ópera sobre (corpos) refugiados” foi escrito por Fadi Skeiker, sírio, que viveu em Portugal e agora reside nos Estados Unidos. O texto foi construído com base em entrevistas a refugiados que vivem em solo português, nas zonas de Braga, Famalicão e Porto.

Teresa Nunes esteve presente nalgumas dessas entrevistas e não se esquece de um caso específico: uma pessoa ucraniana que fugiu da guerra com o filho e passou meses sem querer sair de casa, sem querer provar comida portuguesa ou aprender a língua. “Esteve meses a fazer pesquisas online para perceber se a sua casa tinha sido bombardeada. Só passados uns tempos é que começou a sair à rua. Não queria integrar-se, porque integrar-se era admitir que iria ficar cá”, conta.

“Estas pessoas tinham vidas como as nossas. Ninguém está livre de ter de se refugiar noutro sítio. A conclusão a que chegámos é que temos de dar as mãos, como seres humanos, e tentar perceber a diferença do outro, dizer-lhes que está tudo bem e que esta fase de negação é normal”, acrescenta.

Ao trabalho de Fadi Skeiker juntou-se depois o de Dimitris Andrikopoulos, compositor grego radicado em Portugal e professor da ESMAE, e o do encenador Nuno M Cardoso. Além de Teresa Nunes – que interpreta três papéis –, a ópera conta com o tenor Miguel Leitão, o clarinetista Crispim Luz, a violoncelista Carolina Leite Freitas e o pianista Bernardo Pinhal.

É o primeiro trabalho do QC que não é feito em português. “Frases como ‘It was difficult’ e ‘This is a sad story’ são frases que aparecem durante a ópera”, assinala a cantora. Não sendo um tema fácil, a composição também não o é, mas “a arte tem de ter um lado da esperança” e isso sente-se na música: “Passa de um momento em que é mais agressiva para ser tonal”.

Com estreia na Casa de Artes de Famalicão e uma apresentação no Centro Cultural de Belém, em abril do ano passado, a ópera faz agora o seu percurso. Da estreia, a diretora artística do QC recorda um momento que deixou a equipa muito feliz. “Um grupo de afegãos que está em Braga foi ver. No final vieram ter connosco e disseram que se sentiram representados.” Para o Quarteto Contratempus, a ópera não podia ter recebido melhor aplauso.

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