A cultura vai muito além de espetáculos e exposições. É uma forma de valorizar o passado, pensar o presente e projetar o futuro, um processo com múltiplas dimensões que deve ter como objetivo a valorização e educação de comunidades, e o fortalecimento dos laços sociais. Em entrevista ao Lagos Vive Cultura, o presidente da Câmara Municipal de Lagos, Hugo Pereira, fala sobre a estratégia para a cultura, o valor económico que representa para o município e a importância dos agentes locais num trabalho em que a colaboração tem produzido resultados visíveis.
Qual é a visão da Câmara Municipal de Lagos para a cultura?
Vemos a cultura como uma força vital que celebra as nossas raízes e molda o futuro do nosso concelho. Acreditamos que a cultura é uma ponte que conecta quem somos, suportada na história do nosso povo, ao que aspiramos ser: uma comunidade aberta, criativa, multicultural e cheia de energia.
Esta ideia é a essência do nosso Plano Estratégico para a Cultura, que foi elaborado para dar vida a essa visão de um concelho criativo, sustentável e inclusivo. Este plano não foi criado num gabinete isolado; foi desenvolvido com a contribuição de artistas, associações, técnicos e cidadãos que amam Lagos e desejam vê-lo florescer com alma e inovação.
Para nós, a cultura vai além de uma simples agenda de eventos ou exposições – é uma ferramenta que conecta bairros, abre portas a novas ideias e educa pessoas de todas as idades, desde os mais jovens nas escolas até aos mais experientes. Queremos que os nossos espaços, como a Biblioteca, o Centro Cultural, o Museu e todos os locais que promovem atividades culturais, estejam vibrantes durante todo o ano, com uma programação que educa, entretém, envolve e reforça o orgulho de viver aqui.
Em resumo, a nossa visão é esta: um concelho no qual a cultura é vivida, criada e celebrada por todos – uma cultura acessível, presente no dia a dia e que valoriza a nossa identidade enquanto abre caminhos para aquilo em que nos podemos tornar.
O objetivo é transformar Lagos num concelho pulsante de atividades culturais, históricas e patrimoniais, reconhecido pela diversidade da sua programação e pela valorização das tradições locais, abrangendo várias formas de arte, como literatura, artes plásticas, teatro, dança, música, cinema e muito mais, sempre com um enfoque educativo e comunitário, visando formar públicos e enriquecer a vida cultural em todas as idades.
De que forma é que a cultura contribui para o desenvolvimento social e económico da cidade?
Em Lagos, a cultura vai muito mais além de ser apenas um complemento na vida da cidade. Ela é um verdadeiro motor que impulsiona o valor económico e fortalece os laços sociais.
Nos últimos anos, a Câmara Municipal tem-se dedicado a apoiar as associações culturais, criando oportunidades para artistas e técnicos locais, além de dinamizar os serviços culturais. Este apoio, somado a eventos de grande porte como as Marchas Populares, o Festival dos Descobrimentos e a Arte Doce, atrai milhares de visitantes e tem um impacto direto no comércio, na restauração, no alojamento local e no turismo em geral, ajudando a manter a atividade económica mesmo após a temporada de verão.
Simultaneamente, a aposta em programas educativos, como o “Boca Aberta” em parceria com o Teatro Nacional D. Maria II, leva espetáculos a crianças em idade pré-escolar e envolve a comunidade educativa, formando novos públicos desde cedo.
A cultura também se democratiza por meio de iniciativas itinerantes que alcançam todas as freguesias, permitindo que o teatro, a música, o cinema e as artes plásticas façam parte do quotidiano de quem vive fora do centro urbano. Este dinamismo estende-se à valorização do património, o que não só preserva a identidade de Lagos, como também aumenta sua atratividade turística e educativa.
Integrado no Plano Estratégico para a Cultura, todo este trabalho tem como objetivo posicionar Lagos como uma cidade criativa, inclusiva e sustentável, na qual a cultura é um pilar central do desenvolvimento, capaz de gerar empregos, de atrair investimentos, de unir pessoas e de criar identidade, ao mesmo tempo que reforça o sentimento de pertença e o orgulho de quem aqui vive.
Como é que a cultura contribui para o posicionamento turístico de Lagos?
Lagos tem-se afirmado como um destino cultural de referência no Algarve, quer pelo seu património (material e imaterial), quer pelo dinamismo dos seus equipamentos e associações culturais, quer pela diversidade da sua programação ao longo de todo o ano. Na prática, isto significa promover eventos e iniciativas, bem como divulgar o património histórico, atraindo e prolongando a estadia dos turistas, valorizando as suas experiências.
Por exemplo, o Festival dos Descobrimentos transforma a cidade num palco de recriações históricas e de mercados do século XVI, atraindo milhares de visitantes. Estas iniciativas culturais ajudam a combater a sazonalidade, oferecendo espetáculos, exposições e visitas guiadas durante todo o ano.
Como resultado, Lagos tem vindo a acumular prémios e reconhecimentos turísticos, tornando-se procurado não só pelas suas praias, mas também pelo seu valor histórico e artístico. Em suma, a sua cultura promove um conjunto de ações que tornam o turismo mais rico e sustentável.
De que forma é promovido o património histórico e imaterial de Lagos, garantindo a sua preservação e sustentabilidade?
A Câmara tem várias frentes para proteger o património.
No que diz respeito aos monumentos, continuamos a fazer obras de conservação e renovação – por exemplo, as muralhas da cidade foram restauradas e está em curso a ampliação do Museu Municipal com uma nova componente de Arqueologia que albergará os achados locais. Simultaneamente, estão a ser desenvolvidos itinerários turísticos e educativos (museus, visitas guiadas, sinalética) para reutilizar espaços históricos, equilibrando a fruição pública com a preservação ambiental e cultural.
Em termos de património imaterial, procuramos manter vivas as tradições locais: as festas e celebrações populares (como as Marchas Populares ou o Banho 29) por serem consideradas como parte da identidade coletiva. Não temos qualquer dúvida de que estas festas tradicionais constituem atrações turísticas por serem manifestações culturais únicas.
Para ligar o passado ao futuro, apostamos também na inovação: a plataforma digital do Museu de Lagos, lançada em 2025, que disponibiliza online objetos das coleções e arquivos da cidade e que nos leva novamente além-fronteiras. Esta ferramenta amplia o acesso à cultura de forma sustentável, equilibrando a preservação da memória com a disseminação do conhecimento entre a população e visitantes.
Que impacto têm os projetos de natureza colaborativa com a população e os agentes culturais locais? Tem havido recetividade e resultados positivos?
Os projetos de colaboração têm sido muito bem recebidos e têm produzido resultados visíveis. Por exemplo, o Plano Estratégico da Cultura foi desenvolvido em consulta com a comunidade e a apresentação pública contou com uma forte presença de associações e agentes culturais, sinal do envolvimento de quem vive a cultura em Lagos.
A própria implementação de iniciativas culturais envolve parcerias diretas: a plataforma digital do Museu de Lagos foi desenvolvida através de um trabalho colaborativo entre os serviços internos da autarquia e parcerias externas.
As festas e celebrações populares, como as Marchas Populares, em junho, juntam dezenas de grupos locais em desfiles de rua, abrangendo todo o concelho. Há um verdadeiro compromisso mútuo ao qual as associações culturais e o público têm respondido com entusiasmo, enchendo espetáculos e feiras com público e contribuindo com ideias e talento.
Em suma, diria que a cooperação com a comunidade reforça o tecido cultural de Lagos e alarga o alcance das iniciativas, refletindo a confiança mútua entre a Câmara Municipal, as juntas de freguesia, as associações, os cidadãos e os visitantes.
Qual a importância do novo projeto “Lagos Vive Cultura” para a cultura no município?
“Lagos Vive Cultura” é, para nós, o resultado da mais recente estratégia de sensibilização para a cultura local. Lançada em março de 2025, esta marca municipal reúne toda a programação cultural do município numa única plataforma de comunicação.
Através das redes sociais e do website, pretendemos centralizar eventos, notícias e projetos num canal único e acessível. É um passo estratégico para tornar a oferta cultural mais visível, atrativa e partilhável, convidando a que todos os munícipes e visitantes a experimentar e praticar uma cultura que está viva!
O mote em inglês “Where art takes part” capta a essência do projeto: envolver residentes e turistas, convidando-os a participar ativamente na vida cultural de Lagos. Em suma, “Lagos Vive Cultura” reforça a promoção das iniciativas municipais (festivais, workshops, exposições, etc.), alargando o público e reforçando a imagem de Lagos como destino criativo.
