Projeto Naia | Vinte anos a fazer crescer
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Projeto Naia | Vinte anos
a fazer crescer

O programa de formação em teatro para crianças e jovens do Teatro Experimental de Lagos completa este ano duas décadas, com planos para o futuro que passam pelo alargamento da iniciativa. A edição de 2025/2026 do Projeto Naia está prestes a terminar: há espetáculos para ver no Centro Cultural de Lagos.

São 23 crianças e jovens para três peças que demonstram o trabalho feito ao longo do último ano letivo no âmbito do Projeto Naia, uma iniciativa do Teatro Experimental de Lagos (TEL). Nos dias 25, 26 e 27 de junho, o Centro Cultural de Lagos acolhe espetáculos que, apesar de serem “completamente diferentes”, têm em comum a abordagem de assuntos “fortes”, acerca da sociedade contemporânea, explica Nelda Magalhães, responsável pela direção pedagógica do projeto.

Com a edição de 2025/2026 do Projeto Naia, assinalam-se vinte anos desde que foi colocada em prática a ideia de proporcionar formação em teatro a crianças e jovens. Ao longo dos anos, foram passando pelo TEL muitos alunos. “Alguns ficam muito tempo connosco; outros nem tanto. Depende da vontade e dos percursos.” Há quem entre no projeto para ter uma experiência diferente da escola, mas também se foram descobrindo vocações. “Hoje em dia tenho alunos que são meus colegas”, conta Nelda Magalhães. Existe uma ligação que se mantém, pelo que o balanço destas duas décadas é muito positivo.

“Um dos grandes objetivos do TEL é a formação de públicos não só para o teatro, mas para as outras áreas das artes performativas e para o mundo da cultura”, vinca. “Temos tido também a sorte de conseguir ver alguns elementos que começam aqui e, depois, acabam por ir estudar e seguir áreas dentro das artes performativas.”

No Naia – onde cabem alunos oriundos dos mais diversos sistemas de ensino – não se trabalha apenas a área da representação. Pretende-se que “tenham um conhecimento do que é o teatro como um todo”, dando-se formação alargada sobre as artes do espetáculo dentro do mundo do teatro, as várias profissões e áreas associadas, com a ajuda de profissionais que vão ao TEL transmitir conhecimentos. Este ano, a formação incidiu na maquilhagem e no circo; no ano passado, foi sobre dança.

O projeto, que este ano teve três turmas divididas por faixas etárias, conta ainda com a participação de estagiários das escolas de Lagos, numa colaboração com estabelecimentos de ensino. No ano letivo que agora termina, para o Naia contribuíram dois estagiários de Design de Moda da Escola Secundária Júlio Dantas.

Do bullying à família

Têm entre 12 e 14 anos os alunos mais novos do projeto, responsáveis pela peça “Do Outro Lado”, um espetáculo sobre bullying e a sociedade em que hoje se movem pré-adolescentes e adolescentes. “É um texto que está a ser revisitado”, explica a também presidente da direção do TEL. O texto original foi escrito há 15 anos, tempo suficiente para que muito tenha mudado nas dinâmicas, linguagem e referências dos jovens destas idades. A peça foi, assim, profundamente alterada. “Não esperávamos que mudasse tanto.” Nelda Magalhães contou com o contributo dos jovens atores nesta revisita que agora é apresentada. 

Já a turma que engloba alunos que têm, em média, 15 anos – constituída maioritariamente por raparigas – interpreta “As Bacantes”. “É uma mistura do texto grego clássico com uma revisita contemporânea de ‘Uma Boca Cheia de Pássaros’, de Caryl Churchill. É uma mistura dos dois textos.” Trabalho sobre “a loucura no feminino”, é uma crítica à sociedade contemporânea e “à forma como é exigente para as mulheres, que se veem muitas vezes em situações desesperadas para lidar com o mundo. É um texto mais sério.”

Por fim, a turma dos mais velhos (quase todos eles a frequentar o 12.º ano) é a responsável por “O Deus da Carnificina”, de Yasmina Reza. A reflexão sobre a sociedade contemporânea mantém-se, apesar de o tema ser substancialmente diferente. “São dois casais que se encontram para debater uma altercação que houve entre os filhos e, no meio dessa conversa, surge o que há de pior no ser humano. Tem muito que ver com a relação que as famílias têm, as relações vazias que existem entre os casais, a falta de entendimento e de diálogo”, resume Nelda Magalhães. “Curiosamente, conseguimos fazer uma ligação entre a turma dos mais novos e a dos mais velhos, e as peças têm uma relação: os miúdos que aparecem numa peça são os filhos dos que representam a outra peça.” Esta ligação será mais evidente para quem for ao Auditório Duval Pestana no dia 27 de junho, porque terá a oportunidade de ver as duas peças seguidas.

Este ano, o Projeto Naia inclui ainda uma novidade, “um pequeno momento de acrobacia aérea, com a colaboração dos nossos colegas do circo que nos vão dar uma mãozinha para que haja um momento especial”. O espetáculo acontece no pátio do Centro Cultural e termina dentro do auditório.

A presidente da direção do TEL acredita que, através do teatro e do trabalho que se faz com crianças e jovens, é possível contribuir para uma sociedade menos individualista, mais capaz de ouvir o outro. A arte ajuda ainda a afastar inseguranças próprias destas idades, e “compreender que os outros têm ideias diferentes das nossas que não são necessariamente melhores ou piores”. Para o futuro do Naia, um projeto que, para Nelda Magalhães, se tornou “muito pessoal”, a diretora deseja alargar as idades abrangidas, para que haja mais crianças a quem o teatro ajude a crescer.

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