O nome vem da mitologia grega: Baubo é uma deusa associada ao riso, à sexualidade feminina e à fertilidade. Baubo é sinónimo de esperança e de vida. Feitas as contas, o espetáculo que a AORCA estreia a 10 de outubro no Centro Cultural de Lagos tem a vida no princípio e no fim de tudo: a vida das mulheres, a vida que as mulheres guardam dentro delas, a vida que, para as mulheres, ainda continua a ser condicionada por um mundo gerido por parâmetros ditados pelo sexo masculino.
“O tema não estava definido no início”, conta Sofia Brito, diretora e coreógrafa de Baubo. Bem alinhada estava, porém, a composição da equipa: é constituída só por mulheres, das bailarinas à compositora da banda sonora, passando pela artista plástica. Mas já lá vamos.
Regressando à temática: nasceu de uma troca de ideias, de pesquisa, de debate. Em palco projetam-se questões sobre “a expressão do feminino na contemporaneidade e, sobretudo, numa sociedade muito masculina”; lançam-se reflexões sobre o papel que a cultura onde crescemos e vivemos desempenha na função de segurança que, por vezes, resvala para a opressão.
“É a cultura que limita a sabedoria do corpo, o instinto, tão presente no tema da maternidade, da reprodução”, explica Sofia Brito. A “carga intelectual da nossa sociedade” entra em choque com corpos dotados de “muita inteligência”. A coreógrafa tem vindo a trabalhar em torno da “ferida da autoextinção”, no modo como os seres humanos contrariam o que é natural. “Na nossa sociedade, na sociedade ocidental, a relação com a natureza está carregada de medo e de conflito.”
Num espetáculo de dança-teatro, sem texto nem narrador, o público encontra âncoras para fazer as suas narrativas. “Existem referências teatrais e simbólicas, que se cruzam com a dança contemporânea, que tem liberdade de expressão.” Às componentes do teatro físico, da performance e da dança, junta-se ainda um lado visual “muito forte”, através do desenho de luz e do retroprojetor trabalhado por uma artista plástica, e a música.
Pensado para um público jovem (mais de 14 anos) e adulto, Baubo é um espetáculo com “várias camadas, com uma certa complexidade e profundidade, de como é que a falta de liberdade pode levar até a perturbação mental”. Mas, diz a coreógrafa, também “tem muita beleza, um pouco de drama, tem profundidade, tem humor e é misterioso”.
As mulheres. A maioria foi mãe há um ou dois anos. As exceções são a própria mentora do espetáculo e a responsável pela dramaturgia, que já são “mães maduras”. No início, o projeto dava pelo nome de “Artista-Mãe” porque “tinha a premissa de reunir mulheres num momento de mudança das suas vidas que, muitas vezes, não é valorizada na nossa cultura”. Entre a sobrecarga que a maternidade implica, e as expectativas criadas pelas próprias mães e pela sociedade, Sofia Brito encontrou artistas a deixarem de o ser. O regresso ao palco faz-se com Baubo, para “terem voz” e contarem com o corpo o que é isto de ser mulher.
Da natureza aos adolescentes
A caminho dos oito anos de existência, a AORCA começou com um grupo de pessoas preocupadas com uma questão ambiental específica da altura. A associação evoluiu depois para uma estrutura de criação artística em que os valores de ligação à natureza se mantêm. Além da produção de espetáculos, faz mediação: arte participativa, criação artística, organiza clube de espetadores.
Há três anos, Sofia Brito acrescentou uma nova dimensão que procura dar resposta a uma lacuna sentida por todo o país. “Existe muita gente a fazer espetáculos para crianças e para adultos, e pouca a fazer espetáculos para jovens, para adolescentes.” A coreógrafa não pretende apenas criar opções para esta faixa etária, mas dar-lhe voz também, para que os adolescentes sejam “consultores” no processo de criação e manifestem o que sentem quando um espetáculo lhes é apresentado. Os alunos das escolas secundárias que vão ver Baubo, logo na sessão da manhã, vão ter oportunidade de dizerem de sua justiça.

