O Clube de Leitura de Lagos recebe, a 11 de julho, o escritor José Carlos Barros, para uma sessão dedicada ao livro “Um Amigo para o Inverno”, obra nascida de duas histórias verdadeiras, que nos transporta para um Portugal (não muito) distante. Em entrevista, o autor fala da importância dos grupos de leitura para quem escreve e para quem lê.
São duas histórias verdadeiras num só livro, que se cruzam e partem de uma “perplexidade” do autor. Uma delas tem que ver com um desentendimento em torno de águas de rega que terminou em morte; a outra, com a existência de uma célula clandestina do Partido Comunista Português na província.
“Geralmente, quando se escreve, em grande parte, é para responder à nossa ignorância, àquilo que não sabemos e que nos causa perplexidade”, observa José Carlos Barros. Para o escritor, a ideia de que, nos anos 50 do século passado, “a resistência a Salazar não se fazia apenas nas zonas industriais e de latifúndio, como imaginava, mas também naquilo a que chamamos o mundo rural, foi um pouco surpreendente”.
Da necessidade de dar resposta a esta surpresa nasceu uma obra que acaba por ser um pretexto para falar de “um tempo de silêncio, entre os anos de 1950 e o 25 de Abril”. O livro corresponde “a uma estrutura mais ou menos clássica”, com “um grupo que corresponde ao da situação e outro ao do reviralho, como então se dizia”, descreve.
A sinopse de “Um Amigo para o Inverno” conta-nos que o sargento Francisco Aniceto Gonçalves chegou em 1971 à Vila para chefiar o Posto da GNR. Fez a viagem de camioneta a pensar na mulher que inexplicavelmente o abandonou e na possibilidade de refazer a vida. A quietude das montanhas do seu novo destino esconde, porém, perigos vários, para os quais é avisado por dois grupos distintos. Segue-se uma morte e a descoberta de um conflito com origens profundas, que ajuda o sargento a desvendar o mistério da sua própria vida.
Lançado em 2013, “Um Amigo para o Inverno” foi finalista do Prémio LeYa em 2012. Foi escolhido pela curadoria do Clube de Leitura de Lagos como uma das obras portuguesas incontornáveis publicadas no novo milénio.
Livros em transformação
Vencedor do Prémio LeYa em 2021, com o romance “As Pessoas Invisíveis”, José Carlos Barros marcou então presença em vários clubes de leitura. São momentos muito diferentes das sessões de lançamento de livros ou dos festivais literários: por norma, os clubes de leitura traduzem-se em encontros mais intimistas, sendo que todos os participantes terão já lido a obra que leva o escritor à sala.
“Enquanto autor, participar em clubes de leitura é uma experiência privilegiada, desde logo porque sentimos os livros nas palavras dos outros”, diz. “Foi incrível ir descobrindo como o meu próprio livro [“As Pessoas Invisíveis”] ia sendo outro à medida que falava com os leitores, porque transformam verdadeiramente os livros. Um livro é o que lá está escrito, é o que o autor escreveu, mais a experiência individual e insubstituível que cada leitor leva para dentro do livro.”
Já para quem participa em clubes de leitura – instrumentos importantes para a vida da literatura – contar com a presença de escritores nas sessões é uma forma de as enriquecer. Cria-se a “possibilidade de o leitor, que tem um livro nas mãos, falar com quem o escreveu e confrontar a sua própria leitura com o autor”.
Natural de Boticas, José Carlos Barros é licenciado em Arquitetura Paisagista, com atividade profissional nos domínios do ordenamento do território e da conservação da natureza. Foi diretor do Parque Natural da Ria Formosa. É autor de vários livros de poesia (venceu por duas vezes o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama). “O Prazer e o Tédio” foi o seu primeiro romance, seguindo-se depois “Um Amigo para o Inverno”, livro que o leva agora de Vila Nova de Cacela, onde vive, à Biblioteca Municipal de Lagos.


