Numa sala, exploram-se novas formas de expressão humana, hoje tão marcada pela exposição tecnológica. Noutro espaço, a arte surge como meio de introspeção, numa relação com o intangível. Está aí o 3º Ciclo de Exposições do Centro Cultural de Lagos, com muito para sentir.
Chama-se “Core Cuore” e é uma extensão da edição de 2025 do Festival Verão Azul, uma iniciativa da CasaBranca – Associação Cultural. A coletiva que o Centro Cultural de Lagos (CCL) recebe já a partir do dia 18 de julho, na Sala de Exposições 1, reúne trabalhos de artistas que exploram novas formas de expressão humana, questionando a realidade, o corpo e a identidade, numa era marcada pela hiperconectividade e pela sobre-exposição tecnológica.
Inspirada na estética corecore – baseada na justaposição de imagens e sons para criar narrativas emocionais –, a exposição reflete sobre o que está no centro da experiência contemporânea, evocando sentimentos de alienação, nostalgia e introspeção, ao mesmo tempo que critica o excesso de informação e a superficialidade das interações atuais.
Com curadoria de Ana Borralho e João Galante, “Core Cuore” surge na sequência da 12.ª edição do Festival Verão Azul, que se afirmou como um laboratório interdisciplinar nas cidades de Loulé, Faro e Lagos, promovendo o cruzamento entre artes performativas, sonoras e visuais, com foco em temas como o corpo político e pós-humano, as relações entre cidade e performatividade, e as implicações éticas da tecnologia.
A mostra agora patente no CCL concentra um conjunto diversificado de artistas internacionais que trabalham com vídeo, instalação e práticas híbridas. Podem ser vistos trabalhos de Andy Thomas, Jordan Stone, Molly Soda, John Rising e Noper.
“Core Cuore” não oferece respostas lineares, funcionando antes como um campo de ressonância onde os visitantes são convidados a navegar entre camadas de sentido, confrontando-se com as contradições de um mundo simultaneamente hiperconectado e profundamente desligado.
Introspeção na arte
Nas Salas de Exposições 2 e 3, é possível ver, também a partir de 18 de julho, “Entre o Invisível e o Essencial”, uma coletiva de Joana Varatojo e Clara Buser, duas artistas com percursos distintos, mas que convergem numa mesma procura: a arte como espaço de introspeção, transformação e ligação ao invisível.
Joana Varatojo, artista visual autodidata, desenvolve uma prática intuitiva inspirada pela astrologia, pelo universo e pelos mistérios da vida. A sua pintura nasce como um processo de descoberta interior, em que cada obra se constrói em camadas, guiada pela emoção, pela simbologia e pela energia dos arquétipos astrológicos. Para a artista, a criação assume-se como uma forma de cura e expressão, convidando à exteriorização de universos pessoais feitos de memórias, sonhos e narrativas íntimas.
O espaço expositivo prolonga esta dimensão ao recriar o seu atelier, proporcionando uma experiência imersiva e próxima do seu processo criativo. A componente participativa reforça esta relação: durante dois dias, Joana Varatojo estará presente no Open Studio a pintar uma tela de grandes dimensões (2 m x 1,5 m), convidando o público a participar ativamente nesta criação coletiva. Cada visitante poderá deixar a sua marca na tela, simbolizando a construção de um novo mundo. Ao longo de toda a exposição, estarão disponíveis marcadores acrílicos para que os visitantes possam também contribuir para esta obra coletiva, transformando-a numa peça abstrata, cheia de cor, movimento e simbolismo. O resultado será uma pintura partilhada, criada pelas mãos e pelo coração de cada participante – uma verdadeira semente para o futuro, com a arte a tornar-se espaço de encontro, intenção e criação comum.
Já Clara Buser traz uma abordagem marcada pela repetição e pela dimensão meditativa do gesto pictórico. Com formação académica em artes visuais e música, a sua prática cruza influências da pintura e da composição sonora, sendo que a repetição funciona como um mantra visual. Cada pincelada afirma-se como um ato de contemplação, criando ritmos, padrões e atmosferas que convidam à pausa e à presença. Num tempo de estímulo constante, o seu trabalho propõe um regresso ao essencial, transformando a pintura num espaço de escuta interior e expansão da consciência.
Em conjunto, estas duas linguagens visuais constroem um diálogo sensível entre intuição e meditação, entre expressão espontânea e repetição contemplativa. A exposição afirma-se, assim, como um território comum onde o visível e o invisível se entrelaçam, propondo aos visitantes uma experiência de desaceleração, escuta e reconexão.
O 3º Ciclo de Exposições termina a 29 de setembro. A entrada é gratuita.


