Foi, em tempos, uma atividade económica importante no Algarve. Entre o século XVI e até meados do século XX, da empreita de palma resultavam artefactos variados com uma aplicação prática extensa: as tiras ripadas da palmeira-anã permitiam fazer objetos de uso pessoal e doméstico, para o acondicionamento de bens, para a agricultura e para a pesca.
“É uma arte feita com uma palmeira nativa daqui – não é exclusiva da região do Algarve, mas é natural daqui”, explica Ana Carla Cabrita, responsável por uma série de workshops que têm início este mês na Biblioteca Municipal de Lagos. “As pessoas apanhavam a palma, secavam-na e depois entrançavam-na, e faziam tapetes e cestaria”, exemplifica. “Um dos nomes comuns da palmeira é palmeira-vassoura, porque as pessoas também faziam vassourinhas para tirar as cinzas dos fornos.”
Ana Carla Cabrita teve, desde sempre, contacto com a palma. Era um passatempo para algumas mulheres da família e, para outras, uma forma de ganhar dinheiro. “A irmã da minha mãe, a minha tia, fazia e vendia. Vinha ter connosco, cresci com ela a andar pelos campos. Apanhava a palma, secava-a e levava-a para o Cerro do Ouro no final do verão para fazer cestaria.” A empreita de palma era uma atividade que se realizava sobretudo nos invernos; depois, a venda era feita em mercados.
Apesar de ser uma tradição bem presente na família, não foi em casa que Ana Carla Cabrita aprendeu a arte. “Sou guia da natureza há 15 anos. Um pouco antes de me dedicar a esta atividade já andava a brincar com a empreita, com a palma, e tinha pedido à minha tia para me ensinar, só que ela não tinha muito jeito: estas mulheres fazem isto muito rápido”, diz. A organização de um grupo pela artista plástica Manuela Caneco permitiu-lhe finalmente aprender a fazer vassourinhas. “Ela ia partilhando o que sabia. A Manuela Caneco trouxe este reavivar de uma vontade de pegar nisto mais a sério.”
No EmpreitArte – Do coração às mãos, projeto de Ana Carla Cabrita, pretende-se, antes de mais, que as pessoas descubram competências ao eliminar receios. “O objetivo é conectar as pessoas com as suas próprias mãos – e isto tem muito que ver com a motricidade fina – e, depois, com uma fibra natural, com a própria planta”, explica. “Percebi que a primeira fase pela qual temos de passar é libertarmo-nos da ideia de que não somos capazes.” Feita esta conquista, passa-se para o processo de abrir a palma, ripá-la, e garante-se que existe margem para a construção livre. “A partir daí é que se dá o salto para se fazer um marcador de livros. São dez workshops diferentes e cada um vai ter um objeto.”


