Confissões de Estendal | Na poesia não há palavras proibidas
Confissões de Estendal | Na poesia não há palavras proibidas

Confissões de Estendal | Na poesia não há palavras proibidas

A Biblioteca Municipal de Lagos abre as portas, no próximo dia 20 de março, às Poetas do Avesso, para uma performance construída a partir de poemas eróticos, burlescos e satíricos. Carla Moreira e Joana Espiñal, as responsáveis pelo espetáculo “Confissões de Estendal”, mostram que a poesia assume muitas cores e feitios – e há poemas que, de tão atrevidos e mordazes que são, têm como consequência o riso de quem os diz e daqueles que os ouvem.

“As Confissões de Estendal nasceram de uma forma muito leve e natural”, contextualiza Carla Moreira. “Já tinha trabalhado com a Joana noutro projeto e este nasceu da necessidade de levarmos a palco coisas que nos divertissem e também divertissem os outros, e que tivessem, ao mesmo tempo, uma componente cultural, de escrita e de poesia.”

A escrita e a relação com a poesia são vividas de formas diferentes por estas contadoras de histórias. No entanto, encontraram uma linha comum que lhes permitiu fazer uma coletânea de poemas de autores portugueses, da Idade Média ao presente, onde cabem também autores algarvios. Na Biblioteca vão ser ditos poemas de Abade de Jazente, Augusto Gil, Bocage e Ary dos Santos, entre outros. “A Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica de Natália Correia foi uma grande ajuda e uma grande inspiração”, conta Carla Moreira.

A escrita em forma de verso serve para eternizar amores, desabafar desamores, questionar a existência e fixar a história, além de muitas outras finalidades. Recorre a imagens e figuras de estilo; obriga ao exercício da abstração. São as “Confissões de Estendal” um meio de explicar que a poesia, na sua complexidade, pode ser simples como uma gargalhada? “Não foi uma premissa nossa, mas temos tido este feedback de várias pessoas e em sítios diferentes: com este nosso espetáculo, trazemos a poesia um bocadinho para o lado do stand-up comedy”, diz Joana Espiñal. “Trazemos para esse lado mais leve, mais atual, mais fácil de ouvir.”

“Há aqui uma coisa muito engraçada: a Carla gosta muito de poesia e eu não gosto muito. Mas gosto muito desta. E eu estava desse lado, mais longe da poesia”, confessa. “Gosto muito de histórias e de livros, a poesia não era o meu estilo favorito e foi a Carla a convencer-me. Ou seja, se ela me convenceu, convence toda a gente”, conclui, com uma gargalhada. A diseuse destaca que os textos escolhidos – e embora alguns deles sejam muito antigos – revelam “uma forma de estar mais satírica e mais leve que atravessou a poesia em todos os tempos, mas que deixámos que se afastasse”. A poesia, acrescenta, vai além da erudição.

Tripla celebração

A seleção de poemas feita pelas Poetas do Avesso representa ainda um espaço de liberdade construído no feminino. “Quisemos trazer aqui também um lado mais aberto para nós, que somos mulheres, e que às vezes lidamos com o facto de este tipo de linguagem estar mais interdito em palco”, sublinha Carla Moreira. Nas “Confissões de Estendal” não existem assuntos proibidos e até há “alguns palavrões”.

A antologia de Natália Correia levou-a a tribunal, num processo que durou seis anos e meio, depois de a censura ter entendido que tinha “carácter pornográfico”. Os tempos são outros e o 25 de Abril de 1974 consta dos manuais de História, mas continua a ser importante “comemorar a liberdade”. No mês em que se celebram as mulheres e a poesia, e com as comemorações da Revolução dos Cravos já em perspetiva, a performance é uma tripla festa. “É um bolo de todas estas coisas que, na teoria, já são iguais para todos e que, na realidade, continuam a ser tabu na cultura e no erudito”, remata Joana Espiñal.

Com base em Lagos, as Poetas do Avesso nasceram há uns anos na sequência de um convite feito a Carla Moreira para apresentar “uma coisa fora do comum” numa feira cultural em Albufeira. “Como a Joana é uma pessoa incrível para se trabalhar, lembrei-me dela para avançarmos com isto. Sabia que era a pessoa que ia embarcar nesta viagem.” A colaboração entre ambas gerou mais ideias e um aperfeiçoamento da performance que agora pode ser vista na Biblioteca Municipal Júlio Dantas.

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