“Criaturas de passagem” | Animais como nós
“Criaturas de passagem” | Animais como nós

“Criaturas de passagem” | Animais como nós

O Centro Cultural de Lagos acolhe, por estes dias, “Criaturas de passagem”, uma exposição de Paulo Figueiras. Através da cerâmica, o artista explora a relação entre humanos e animais, e o modo como uns e outros se situam na vida.

Têm todos tons rosa e estão em grupo: são iguais, pertencem ao mesmo bando. Ao lado, a uma certa distância, vemos um, branco, sem enfeites de cor, mais alto. Está sozinho; não se sabe se por escolha ou se por imposição do grupo. À obra que reúne um conjunto de flamingos, Paulo Figueiras deu o nome de “Sê diferente”. A diferença, entende, “não é um desvio, mas uma forma legítima de existir”. E acrescenta: “Se no grupo existe segurança, no singular reside a verdade e o desencaixe”.

É uma observação que vale para os flamingos esculpidos em cerâmica, mas que também se aplica aos homens. Em “Criaturas de passagem”, exposição de escultura e pintura de Paulo Figueiras, é traçada “uma analogia entre nós, humanos, e os outros animais”, contextualiza o artista plástico. “Parte do princípio de que os animais não são iguais nem inferiores a nós, mas estão, tal como nós, apanhados nisto que é a vida”, acrescenta.

Cada peça conta uma história, nem sempre a mais expectável: há um pelicano com um peixe na cabeça, numa clara inversão das relações de poder e força. Outras obras remetem-nos para a metamorfose.  

Paulo Figueiras, artista autodidata, é diretor do Zoo de Lagos, local onde trabalha desde a abertura da estrutura, o que faz com que sejam já muitos os anos de contacto com animais. A observação e o trabalho de conservação de diferentes espécies são uma influência clara e assumida na sua vertente artística.

Da tinta da China à cerâmica

A arte entrou cedo na vida de Paulo Figueiras. “Desde miúdo que desenho. Na escola, os meus cadernos estavam cheios de traços e de desenhos. É algo que nasce logo connosco.” Aos 18 anos, altura em que trabalhava muito com tinta da China, fez a primeira exposição. “Uma amiga minha convidou-me para fazer uma exposição em Lagos, num espaço da Câmara Municipal. Fizemos essa exposição os dois e houve um crítico de arte que entrou na galeria, perguntou-me quanto era um quadro, quanto era outro, pediu o preço de tudo e acabou por comprar.” Os trabalhos abstratos valeram ao jovem artista um emprego ao longo de dois anos, em que a pintura ganhou outra dimensão. “Foi então que tudo começou a crescer.”

A escultura em cerâmica – que “foi sempre também uma paixão” – chegou mais tarde. “Fiz workshops, comprei uma mufla [forno para cozer barro, usado em cerâmica artística], e as coisas têm evoluído.” A pensar no desenvolvimento constante que a arte exige, Paulo Figueiras pensa agora frequentar um workshop no Reino Unido, para poder aprender outras técnicas e continuar a criar esculturas em cerâmica, algo que lhe dá “um prazer imenso”.

“Criaturas de passagem” pode ser visitada na Sala de Exposições 0 do Centro Cultural de Lagos até ao dia 1 de agosto.

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