A poesia salvou-a – e é com ela que espera ajudar quem a quiser ouvir. Karen David, poeta brasileira, está na Biblioteca de Lagos a 21 de março para assinalar o Dia Mundial da Poesia com uma sessão que promete ser inesquecível. “Desverso” não é um recital, nem tampouco uma leitura encenada; é um espetáculo de poesia falada pela voz de quem a sentiu e a passou para o papel.
“Desverso”, conta Karen David, resulta de portas que se fecharam ao longo da sua vida. “Trouxe em forma de poesia o quão importante foi observar a vida de uma forma positiva, apesar dessas portas que se iam fechando através do meu caminhar.” O otimismo com que foi encarando a vida à medida que passava da adolescência para a idade adulta foi o que lhe permitiu chegar onde hoje se encontra.
“A narrativa proposta em ‘Desverso’ é mostrar que, às vezes, acreditamos que a nossa vida está indo para um lugar negativo e que não estamos a conseguir os nossos objetivos, mas isso é porque o que sonhamos é pequeno de mais para o que já está lá na frente, predestinado para nós”, explica. “Até a porta fechada é uma oportunidade de ser melhor, de conquistar novas coisas. É isso que quero levar ao palco de Lagos: a perspectiva de uma vida muito boa, de sonhos alcançados apesar dos obstáculos que vamos encontrando na nossa trajetória.”
A poesia entrou na vida de Karen David através do rap e do hip-hop, na escola. Numa exposição cultural descobriu que “há várias formas de líricas, textos e poesias, e uma delas estava apresentada em forma de rap”. A então ainda adolescente Karen leu uma letra do grupo brasileiro Racionais MC’s, e encontrou-se naquelas linhas. “Combinou muito com a minha vida, com as coisas que eu vivia e via durante a minha infância. Naquele momento percebi a poesia através da música”, recorda.
Descobriu que era capaz de se expressar através da escrita, sem saber que os textos que escrevia na última folha dos cadernos eram poesia. De igual modo, estava longe de imaginar que a escrita a levaria para longe. “Depois, mais tarde, vi pessoas que se pareciam comigo também, que moravam em lugares parecidos com os meus, que se intitulavam poetas da palavra, trabalhadores da palavra. Os textos deles se pareciam com os meus. E aí eu achei que também tinha algo para dizer.” Foi então que percebeu que também ela era poeta.
Palavras que curam
Karen David vive em Portugal desde 2023. Dois anos antes, no Brasil, ganhou notoriedade com o poema viral “Promete que vai ficar”. Também em 2021, participou da Bienal do Livro de São Paulo e iniciou o projeto Correio Elegante Poético, no qual transforma histórias reais em poesias personalizadas.
Para a poeta, com uma obra muito autobiográfica, a poesia serve para aproximar pessoas. “Foi o que aconteceu comigo, acho que pela semelhança. Atraímo-nos pelo comum, pelo mesmo trauma, pela mesma felicidade, às vezes pela mesma dor, mas muitas vezes também pela mesma euforia.”
A necessidade de identificação não afasta, porém, a necessidade de entendimento do que é diferente. “Gosto de ler sobre as coisas com as quais não concordo, ou sobre aquilo que não diz muito sobre mim, porque entender para além da minha bolha é muito importante”, vinca. “Mas cativa-me muito mais o que se parece e o que me entende, o que me acolhe, o que me estanca. Acredito que a poesia nos cura, e através dessa cura a gente aproxima-se.”
Há já cinco anos que a poesia é o trabalho de Karen David que, noutro tempo, foi empregada de mesa. Com a mudança de estatuto da poesia na vida da poeta, surgiram outras preocupações. “É o meu trabalho e parou de ser o meu desabafo, porque passou a ser uma obrigação. E tudo o que é uma obrigação vem com um peso. Hoje escrevo para viver e para realizar este sonho profissional que é ter uma carreira mais consolidada aqui na Europa, através da poesia”, afirma.
A poeta acrescenta que já alcançou muito do que queria: viver da arte. Mas há um objetivo que nunca se esgota. “Gostaria que a poesia continuasse a trazer-me a paz e a certeza de que o meu trabalho não só é digno, como obrigação, mas também está salvando pessoas. Gostaria de ser um instrumento de cura na vida das pessoas”, garante. “Se a poesia, daqui por diante, me permitir continuar a ser um instrumento de cura, acho que serei muito bem-sucedida e ficarei feliz.”
Autora do livro “Tinha Perigo na Curva do Seu Sorriso” (2022), Karen David apresentou-se no programa Got Talent Portugal no ano passado. Participou em eventos como o Festival Sol da Caparica, a MAP – Mostra de Artes da Palavra, e foi convidada pelo Museu Calouste Gulbenkian a criar e apresentar uma poesia inédita inspirada numa das obras do seu acervo. É coautora, ao lado de Marina Campanatti, do espetáculo “Todas as Histórias de Amor”. Membro da Associação Cultural FALA Orgânica, soma mais de 362 mil seguidores no TikTok e 63 mil no Instagram, onde partilha os seus textos e performances.

