Foi a primeira visita do jovem D. Sebastião, na qualidade de rei, a terras algarvias. Por essa altura, o monarca pensava já na viagem a África que o faria navegar rumo a um fado incerto. Entre os preparativos para a campanha que terminou com a sua morte (ou desaparecimento, conforme as narrativas) na Batalha de Alcácer Quibir, Lagos era um destino inevitável. À época, a vila desempenhava um papel de relevo na logística da expansão marítima.
A visita do rei, que ficaria para a história como “O Desejado”, aconteceu entre os dias 19 e 24 de janeiro de 1573. Os dias não foram passados exclusivamente em Lagos, mas o que ali viu convenceu-o da importância da vila: poucos dias depois da partida, quando se encontrava em Silves, decidiu elevar Lagos a cidade. “Foi a única localidade durante o seu reinado que recebeu a honra de ser elevada a essa categoria”, observa o historiador Artur de Jesus.
“Esse privilégio foi confirmado mais tarde pelo seu tio cardeal Rei D. Henrique, o nosso último rei da Segunda Dinastia, em 19 de maio de 1579.” Ainda antes disso, em julho de 1573, o Rei D. Sebastião decidiu nomear o primeiro governador do Reino do Algarve. Com a presença de um representante da Coroa na zona sul do país, Lagos tornou-se a capital do Algarve – estatuto que perderia para Tavira apenas em 1755, na sequência do Terramoto de Lisboa.
Com a elevação a cidade, “houve um reconhecimento do papel estratégico de Lagos e da baía”, considera o historiador. “O Algarve já estava a dar apoio ao que se passava no Norte de África, em Marrocos, com as conquistas portuguesas do séc. XV.”
Touros e missas
D. Sebastião é indissociável da história de Lagos. Dessa primeira visita restaram documentos e relatos que permitem perceber a “agenda quase diária” do rei. “Andou a conhecer o território, em visitas a vários espaços, e frequentou missas em espaços religiosos da então vila”, relata Artur de Jesus. “Foram corridos touros em sua homenagem e o rei participou também ativamente nesses festejos.” Houve ainda tempo para visitar a Fortaleza do Pinhão, que “estava bem capacitada ao nível de artilharia e de homens para defender a entrada por mar”.
A 21 de janeiro, o rei deslocou-se para fora do território de Lagos e foi até Sagres. Regressou dois dias depois, com passagens por várias aldeias, entre elas Espiche e Almádena. “Depois passeou de barco pela costa até Alvor e regressou a cavalo a Lagos.”
Na data da despedida, teve ainda tempo para assistir a uma missa na Ermida de Nossa Sra. da Piedade. “Tomou uma refeição em Lagos, fez despacho de documentação, ouviu música – aparentemente era um amante de música –, e partiu para Vila Nova de Portimão, a bordo de um bergantim, dando seguimento à sua visita oficial”, remata o historiador.
O monarca e a sua comitiva partiram, mas de Lagos D. Sebastião levou a convicção de que o Algarve se revestia de particular importância para o seu projeto político e para as suas ambições pessoais. Haveria de regressar. Lagos permaneceu cidade, estatuto administrativo que mantém há 453 anos.

