São vinte fotografias de um conjunto maior, de quase meia centena, que têm estado por estes dias expostas na Biblioteca Municipal de Lagos. José Cabral Silva, fotógrafo natural de Lagos, decidiu mostrar registos captados nos últimos anos no sudoeste algarvio. Captou paisagens que são facilmente reconhecíveis para quem conhece bem Portimão, Lagos, Vila do Bispo e Aljezur.
“Aqui” tem várias razões de ser. “Primeiro, porque vivo aqui. Conheço bem esta zona”, introduz. “São paisagens que tendem a desaparecer, devido à pressão turística e não só. Há uma série de imagens que certamente daqui a dez ou vinte anos serão diferentes.” Há uma memória pessoal a preservar que é também uma memória coletiva.
O conjunto que compõe a exposição é a preto e branco. “Gostava que fossem um pouco intemporais”, afirma José Cabral Silva, seguindo ainda a lógica de fixar o que é hoje aquela zona específica do país. “Algumas fotografias são até minimalistas, têm que ver com sombras, com texturas, com rochas, com coisas que estão lá e às vezes as pessoas não reparam.”
Depois de Lagos, o fotógrafo prepara-se para levar “Aqui” a outros destinos. “No início do próximo ano, as fotografias vão ser reunidas num livro, que funcionará como catálogo nas próximas exposições que vou realizar com estas e com outras fotografias”, conta.
A fotografia surgiu no percurso de José Cabral Silva na década de 1970, consequência de um hábito anterior. “Gostava muito de passear – coisa que ainda faço muito –, de olhar e de guardar um bocadinho daquilo que vejo. Na altura, a melhor forma pareceu-me ser a fotografia.”
As primeiras imagens foram feitas com uma câmara simples; depois, com outro tipo de equipamento. Seguiu-se a formação nas áreas do Desenho, Pintura e Fotografia no Ar.Co, tendo organizado e participado em várias exposições, individuais e coletivas. Estudou ainda no Instituto Português de Fotografia. Em 1988, foi distinguido com o Prémio de Fotografia na IV Bienal de Artes Plásticas de Lagos. É formador na área da fotografia.
Num mundo com um ritmo cada vez mais acelerado e inundado pela manipulação de imagens, a fotografia, tal como a conhecemos, vai continuar a ser uma realidade, acredita o fotógrafo. “Com a inteligência artificial, as coisas complicaram-se um pouco. Mas há sempre espaço para a fotografia tradicional, que considero a verdadeira fotografia – a não manipulada.” José Cabral Silva faz a comparação com a escrita que, “pela mão de alguém, não se pode comparar à escrita por inteligência artificial”. Com a fotografia acontecerá o mesmo, para que se consiga continuar a guardar paisagens e momentos, e construir memórias coletivas.


