Infante | O mundo maior começou em Lagos
Infante | O mundo maior começou em Lagos

Infante | O mundo maior começou em Lagos

Lagos é uma cidade voltada para o mar, terra de horizontes infinitos e de viagens por águas desconhecidas. É-o desde sempre, pela ligação das suas gentes à vida que as ondas trazem e levam e, mais tarde, pelo papel que desempenhou no primeiro processo de globalização. Neste contexto de descobertas, há uma figura de particular relevância: o Infante D. Henrique, o Navegador, o homem que, a partir de terra firme, decidiu que havia um mundo para conhecer e conquistar.

Por ocasião do 565.º aniversário da sua morte e sepulcro na região, o historiador Artur de Jesus afirma, sem hesitar, que “o Infante D. Henrique é importante em Lagos, em Portugal e no mundo”. Filho de D. João I, o primeiro rei da Segunda Dinastia, e da inglesa Filipa de Lencastre, é um dos nove filhos do casal e um dos elementos daquela que ficaria conhecida para a história como a Ínclita Geração – uma geração de príncipes com grande notoriedade em Portugal.

Entre os irmãos, destacou-se D. Henrique. O Infante “era empreendedor, detinha vários títulos e territórios que administrava”. Duque de Viseu, Senhor da Covilhã, desempenhou “outros cargos importantes e ao nível religioso também, como no caso da Ordem de Cristo”, exemplifica Artur de Jesus. A Sul, Sagres foi o seu primeiro senhorio.

“Ele interessou-se pelo Algarve como a grande rampa de lançamento para aquilo que conhecemos como os Descobrimentos portugueses.” Diz-se que a Expansão Marítima começou no século XV – uma “incorreção”, alerta o historiador – com a vã tentativa de conquista das Canárias ainda ao tempo de D. Afonso IV. No século seguinte, o Infante D. Henrique “serviu-se de Lagos precisamente por ter as condições necessárias para fazer viagens de reconhecimento de novos territórios, perspetivando também a questão de novos mercados ou novos senhorios”. 

Com uma das maiores baías da Europa, “uma meia-lua que constitui um excelente abrigo para a navegação”, e gente com uma forte ligação e conhecimento do mar, o Infante encontrou as condições ideais para a sua empreitada. “A primeira fase dessa aventura que ficou conhecida como os Descobrimentos Portugueses arranca aqui de Lagos, com o patrocínio do Infante D. Henrique e com gente de Lagos. Os seus escudeiros, a marinhagem, era gente local”, explica. 

Durante a vida do Infante, os portugueses chegaram às ilhas do Porto Santo e da Madeira, a parte dos Açores, e foi feito o reconhecimento da costa litoral de África, desde a zona da Mauritânia à Serra Leoa, passando pela descoberta do arquipélago de Cabo Verde. “Foi um processo que não parou. Pela primeira vez na história da Humanidade, contornou-se por via marítima o continente africano. Os portugueses inauguraram essa rota, trouxeram novidades para a Europa. Foi uma revolução que mudou a história do mundo para sempre.”

Morte e eternidade

Nascido no Porto em 1394, o Infante viria a morrer em Sagres, no dia 13 de novembro de 1460. “Como Sagres não tinha uma igreja digna para um príncipe de Portugal, foi escolhido que ele fosse sepultado na Igreja Matriz de Lagos, que era a Igreja de Santa Maria da Graça. O corpo ficou aí sepultado durante alguns anos, até que o seu herdeiro, o Infante D. Fernando, fez a transladação para o Mosteiro da Batalha, onde está com o resto da família”, conta Artur de Jesus.

O papel que D. Henrique escolheu para Lagos teve continuidade. Lagos “assumiu um papel importantíssimo não só na vertente marítima, mas também como ponto de apoio às conquistas que foram feitas no Norte de África pelo Rei D. Afonso V”. No processo de encerramento dos Descobrimentos, em 1578, “a fatídica jornada para Alcácer Quibir, com D. Sebastião, também arrancou daqui e não foi por acaso”: Lagos era estrategicamente importante. “Por isso mesmo, é de capital importância não esquecer nem a figura do Infante D. Henrique, nem o seu papel nessa jornada que levou a que um pequeno país no fim da Europa se projetasse progressivamente pelos vários continentes.”

Os Descobrimentos, remata o historiador, “são uma realidade que merece uma atenção mais cuidada nos dias de hoje, sobretudo porque são uma realidade dupla”. “Os europeus descobrem África, a América e a Ásia, mas os africanos, os ameríndios e os asiáticos descobrem também os europeus. Tudo isto depois se entrecruza. Independentemente das luzes e das sombras, é a primeira vez que há uma aproximação entre os povos.” Lagos esteve no início deste mundo maior.

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