Maçonaria em Lagos | Os segredos das ruas
Maçonaria em Lagos | Os segredos das ruas

Maçonaria em Lagos |
Os segredos das ruas

Foi em Lagos que nasceu a primeira loja maçónica do Algarve. A maçonaria chegou à cidade há 210 anos, através dos ideais da Philantropia. Este é um dos factos abordados na visita guiada proposta pelo historiador Artur de Jesus, agendada para 4 de julho.

Lagos é mais do que Descobrimentos e heroicos navegadores. Nas ruas da cidade escondem-se histórias e memórias, muitas delas ligadas à forte presença militar que o concelho conheceu no passado. A visita guiada proposta para 4 de julho, orientada pelo historiador Artur de Jesus, vai ao encontro de outros tempos e de factos pouco conhecidos do público em geral: Lagos foi o primeiro local do Algarve a ter uma loja maçónica.

“A maçonaria apareceu em Lagos há 210 anos, em 1816, com a fundação da loja Philantropia”, contextualiza o historiador. Esta sociedade teve 43 membros, de militares a comerciantes, passando por médicos e religiosos.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a cidade teve cinco lojas maçónicas. “Com altos e baixos, conheceram tempos difíceis, sobretudo com a perseguição durante o Miguelismo, período em que houve uma repressão feroz.”

É preciso recuar ao século XVIII para encontrar as origens da maçonaria em Portugal. Atribui-se a criação destas sociedades secretas à passagem do Conde de Lippe pelo país. O militar que por cá residiu, em dois períodos diferentes, veio com a missão de reorganizar o exército lusitano, mas deixou também os ideais, rituais e formas de organização que caracterizam o movimento maçónico. Sendo Lagos terra de passagem de militares e também de comerciantes estrangeiros, não espanta que tenha sido o local inaugural deste tipo de estrutura.

“Lagos teve sempre um papel importante ao nível da defesa dos ideais liberais e republicanos”, lembra Artur de Jesus, acrescentando que os maçons tiveram um papel importante para as alterações políticas e sociais que o país conheceu. Foram vários os homens naturais da cidade que, neste contexto, ultrapassaram a esfera local e adquiriram notabilidade.

João Baptista da Silva Lopes foi um deles. “Presidente da Câmara Municipal, liberal, foi preso político, perseguido pelo Miguelismo, esteve preso na tenebrosa cadeia de São Julião da Barra. Intelectual e erudito de grande dimensão ao nível local e também nacional, publicou em 1841 a obra ‘Coreografia do Reino do Algarve’, uma referência, ainda hoje, para quem quer conhecer a história do Algarve”, exemplifica.

Outro maçon de destaque foi o médico Lima Leitão, iniciado numa loja militar em França. “Ingressou na Legião Portuguesa de Napoleão Bonaparte. Formou-se em Paris, em Medicina. Cirurgião militar, era também um homem com uma dimensão muito grande na medicina em Portugal.” Pioneiro da homeopatia no país, a ele se deve ainda a adoção da prática das autópsias nos hospitais portugueses. “E teve uma vida de aventuras, foi político, também esteve preso, foi poeta, foi escritor.”

Há ainda outros nomes da história de Lagos que pertenceram a lojas maçónicas, como Alberto Carlos da Silveira, ministro da Guerra e “membro destacado da Primeira República”, e o tenente-coronel Francisco Velhinho Correia, ministro das Finanças e ministro do Comércio, também em governos da Primeira República.

Uma cidade de muitas realidades

A visita guiada do dia 4 de julho começa junto à estátua do navegador Gil Eanes, no Jardim da Constituição. “Vamos fazer uma introdução sobre a maçonaria através da voz de maçons, com recurso à literatura sobre o assunto”, explica Artur de Jesus. “Iremos falar de algumas personalidades, entre elas Joaquim Cândido Correia”, antigo presidente da Câmara que integrou igualmente uma loja maçónica.

“Falaremos do médico Lima Leitão, na rua dele. Vamos fazer um percurso pela cidade, pelas ruas e pelos espaços que estão associados a estas pessoas e a esta realidade.” Há uma passagem pela Rua Garrett, no centro da cidade – o poeta e escritor também foi maçom.

A Praça Gil Eanes, outro ponto da visita, tem uma particular importância neste contexto: “Sabemos que, de acordo com fontes da época, houve sessões maçónicas em casas particulares e até numa cave”. Esta viagem ao passado termina na Fototeca Municipal, “com uma pequena amostra de slides, incluindo fotografias”.

Artur de Jesus salienta que o objetivo destas visitas se prende com a necessidade de mostrar que, em Lagos, a história revela “uma cidade plural, com várias dimensões, realidades e faces”. Neste contexto, faz sentido falar sobre um movimento que teve na sua génese ideais como liberdade, igualdade, fraternidade e aperfeiçoamento moral, e que, em Lagos, conquistou membros que contribuíram para a evolução da condição humana.

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