Os museus são lugares de memórias, de coleções, de um passado que aconteceu quase sempre antes de existirmos. Fazem-se de paredes, de tetos, de bilheteiras, de salas com luzes apontadas para objetos, e fazem-se de silêncio, de palavras ditas em voz baixa. E se um museu não fosse nada disto, mas servisse igualmente para guardar memórias e transportá-las para o futuro?
Em abril deste ano, Paulina Almeida, curadora do Museu Efémero, lançou um desafio aos alunos da Escola Básica de Odiáxere: imaginem e desenhem museus. Muitas daquelas crianças já estavam habituadas a reptos invulgares. No ano passado, na primeira parte do projeto que agora culmina no Antigo Picadeiro de Odiáxere, tiveram de pensar e trabalhar sob o mote da Água Invisível.
Desta vez, a água também esteve presente, assim como outras questões ligadas ao ambiente, como a poluição ou o plástico. Mas também se imaginaram “museus do futuro, o museu da Catarina – um museu sobre ela –, e muitas outras coisas incríveis”, diz Paulina Almeida. Algumas propostas eram muito difíceis de concretizar; outras revelaram-se mais exequíveis. Todas elas “muito puras”.
Estava assim concluída a primeira fase do Museu Efémero. A partir daqui, dos museus desenhados, a arquiteta Maria Garcia, “muito ligada também ao universo infantil”, traduziu as propostas para linguagem de arquitetura, para se fazer a transposição das ideias para o espaço físico. “Esse espaço físico tinha de ser efémero, porque não é construído com tijolos; tinha de ter uma certa leveza”, contextualiza a curadora. Houve ainda o cuidado de associar o espaço à ideia de parque infantil, para que as crianças o pudessem habitar.
As peças que integram o museu resultam, muitas delas, da colaboração com artistas adultos. A Associação Cultural Improvise and Organize, da qual Paulina Almeida faz parte, trabalha em rede com pessoas das mais diversas nacionalidades. No Museu Efémero estiveram envolvidos 18 artistas nacionais e internacionais, que refletiram sobre os temas. Algumas obras já estavam feitas e encaixavam nas ideias dos artistas mais pequenos. “O museu é num antigo picadeiro. Há uma artista do Quirguistão que tem um filme sobre uma mulher que quer tomar conta de cavalos”, exemplifica. Outros artistas sugeriram trabalhar em cerâmica. “Fomos ligando os temas e construindo este puzzle.”
Um livro e a memória
Efémero que é, este museu – resultado da colaboração entre o Museu de Lagos e a associação cultural Improvise and Organize – tem os dias contados. “O museu existe, existe naquele momento, existe no encontro, na partilha, no inesperado e no efémero, naquilo que depois fica, que são essencialmente as memórias. Tem mais que ver com a memória do que com a permanência de objetos”, afirma a curadora. “Muitos objetos foram recolhidos no território e vão ser devolvidos ao território.” Há pedras, pauzinhos e folhas sobre os quais se inventaram histórias.
Para a posteridade fica, porém, um livro que recupera a primeira parte deste projeto, Água Invisível, e fixa os desenhos e o processo de criação do Museu Efémero. “E fica a memória”, acrescenta Paulina Almeida. “Começa a criar-se aqui uma espécie de imaginário coletivo.”
Num espaço que se pretende dinâmico, o Picadeiro – Largo do Moinho | Odiáxere vai receber performances e música ao longo dos dias deste Museu Efémero. Nos dias 15 e 16 de outubro, as visitas são destinadas a grupos pertencentes a instituições, com marcação prévia. De 17 a 19, destina-se ao público em geral.


