O “conservatório do povo” de Lagos
O “conservatório do povo” de Lagos

O “conservatório do povo” de Lagos

São um fenómeno em todo o país, que se terá desenvolvido com os ideais liberais pós-Revolução Francesa, e desempenham um papel fundamental não só na educação musical, como também na identidade e afirmação das comunidades. Lagos não é exceção: a Filarmónica de Lagos nasceu em 1931 e, ao longo dos anos, foi a responsável pela formação de muitos jovens músicos, realidade que se mantém até hoje.

“A Filarmónica começou em 1931, mas há quem refira que vem de um antigo grupo que tinha que ver com o Regimento de Infantaria que existia em Lagos. Oficialmente, como Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1.o de Maio, tem a sua fundação em 1931, com um pequeno grupo de músicos que se juntou, regido na altura por Manuel António Portelada”, conta Dina Cintra, presidente da direção do agrupamento.

Ao longo dos quase cem anos de existência, a formação foi tendo “altos e baixos”, dificuldades “sempre ultrapassadas com muito boa vontade, quer dos músicos, quer dos dirigentes”. “Neste momento, temos uma forte aposta na escola de música que é, no fundo, aquilo que alimenta a banda filarmónica”, sublinha, destacando que “daqui já saíram muitos músicos, muitos bons músicos”.  

Noutros tempos, as bandas filarmónicas, presentes no contexto urbano e nos meios rurais, representavam a única possibilidade de aprendizagem musical. Hoje, apesar da multiplicação de estruturas, continuam a ter um papel fundamental na formação: estão espalhadas por todo o país, onde as escolas de música e conservatórios ainda não chegaram.

“As filarmónicas são os conservatórios do povo”, afirma Dina Cintra, ressalvando de imediato a importância do papel dos conservatórios e das academias. “Mas onde os miúdos ganham traquejo no desempenho musical, na parte mais prática, é nas filarmónicas. Temos situações em que músicos do Conservatório frequentam também a Filarmónica como um complemento muito válido àquilo que são as aprendizagens mais formais. É, sem dúvida, uma aposta que tem de ser continuada.” 

Com um vasto repertório, que se adequa aos eventos em que participa, a Filarmónica de Lagos faz concertos, e está presente em arruadas, cerimónias, procissões e festas. “Temos muitas atuações, quer ao nível regional, quer ao nível nacional, e também já tivemos algumas incursões fora do país.” Constituída por cerca de 40 músicos, a banda apresenta-se em palco numa formação de entre 30 a 35 instrumentistas. Faz em média 40 atuações por ano. É um grupo de pessoas muito novas, mas “com dois jovens com mais de 80 anos” que ainda estão ao serviço da banda. “Apostamos não só na juventude, como também no apoio aos seniores que nos ajudam a transmitir a cultura e a tradição da Filarmónica.”

Próximos concertos e desafios

Há quarenta anos na Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1.o de Maio, Dina Cintra diz que o grupo “é sempre muito bem recebido”. “Quando passava algum tempo sem aparecer na rua, nos desfiles e nas arruadas – e houve uns anos em que não conseguíamos dar resposta a esse tipo de atividades –, as pessoas sentiam falta.” Hoje, é presença regular em desfiles e concertos ao ar livre, como aquele que acontece a 7 de setembro, no evento Noites no Cais, em que conta com um convidado especial: o trompetista Luís Martelo.

Para outubro há já um novo projeto, com arranjos feitos no âmbito de uma parceria com uma banda rock. “É um projeto inovador ao nível do Algarve. A Filarmónica vai tocar em conjunto com a banda Íris, uma banda rock muito reconhecida no Algarve.”

Quanto ao futuro de um projeto quase centenário, a presidente da direção realça o apoio do Município de Lagos, mas identifica vários desafios, que têm que ver, desde logo, com as dificuldades sentidas nas atuais instalações. “Estamos a aguardar ansiosamente as obras de ampliação e requalificação da sede, que parece que finalmente vão avançar.” Também o financiamento da escola de música é uma luta constante: “Todos os apoios são poucos, a escola de música não consegue auto-sustentar-se. A pequena mensalidade que as famílias pagam não cobre as despesas com professores e manutenção do espaço”.

Com uma história de vida longa, a Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1.o de Maio quer poder continuar um percurso que visa “agradar a todos”, como instituição nascida para as pessoas, que vive para as pessoas: tocar peças que vão do repertório popular, “nunca esquecendo a música portuguesa”, mas também algumas “mais desafiantes”.

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