Oz ou a Estrada? | O que conta é o caminho
Oz ou a Estrada? | O que conta é o caminho

Oz ou a Estrada? |
O que conta é o caminho

A Ardemente apresenta, no próximo dia 12, o espetáculo “Oz ou a Estrada?”, uma peça que parte do clássico “O Maravilhoso Feiticeiro de Oz”, escrito por L. Frank Baum. A produção da companhia de Viseu estreou em março e, tal como a personagem Dorothy, é na estrada que tem estado, com paragens nalgumas cidades. Chega agora ao Centro Cultural de Lagos para lançar questões e deixar o público a pensar: afinal, é para isso que o teatro serve e este espetáculo apresenta-se com uma interrogação.

Ainda assim, a pergunta é inevitável: é Oz ou é a estrada? Roberto Terra, um dos responsáveis pela dramaturgia, explica que, apesar de não ser objetivo da peça responder à questão, “existem essas tentativas”. “O objetivo principal é ir para casa a pensar nisso, sobretudo o público mais jovem.” Rafa Jacinto, que partilha o trabalho de criação, contrapõe: “Acho que respondemos ao longo do espetáculo, a pergunta vai ficando respondida porque queremos fazer este paralelismo com a nossa família escolhida – um conceito muito comum na comunidade LGBT+ – com este caminho que Dorothy faz e onde encontra todos estes amigos”.

A adaptação de “O Feiticeiro de Oz” é um projeto que Roberto Terra andou a criar “desde criança”, por ser uma referência de longa data. “É um filme da minha infância, lembro-me de o ver múltiplas vezes. Mais tarde, li o livro e depois fui encontrando outras adaptações”, conta. Explorar o universo imaginado por Baum permitiu-lhe detetar uma ligação entre “a simbologia do Feiticeiro de Oz e a comunidade queer”, à medida que foi descobrindo a sua identidade queer. Deu-se o acaso de conhecer Rafa Jacinto – que, por sinal, foi com “O Feiticeiro de Oz” que se estreou nas idas ao teatro. “No meio de conversas disse-lhe que gostava de fazer ‘O Feiticeiro de Oz’ queer. E Rafa disse-me: ‘Então, faz!’.” E assim aconteceu, num trabalho a quatro mãos que conta, na interpretação, com Rafa Jacinto, Deka Saimor, Gabriel Gomes e Tadeu Faustino.

A peça foi estruturada a pensar nos adolescentes, nas questões levantadas pelo texto que encaixam nas preocupações de quem está a crescer: “a busca pela coragem, pela casa, pelo coração e por um cérebro”. “Mas temos visto que resulta muito bem com toda a gente, não é especificamente para adolescentes”, ressalva Jacinto. Roberto Terra acredita “muito na transversalidade” e na ideia de que “um espetáculo feito para o público escolar que não funcione também para adultos, é porque falhou nalguma coisa”. As reações do público mais velho levam-no a acreditar que a solução encontrada foi acertada. “Fomos tendo muitos adultos encantados e que nos dizem que quem lhes dera terem tido este espetáculo quando eram adolescentes.”

Produção com “muita cor”, é “engraçada, mas com alguns momentos mais tensos”, resume o dramaturgo e encenador. “É um espetáculo com muitos picos e vales. O público vai acompanhando isso. Acima de tudo, é uma ótima hora e dez minutos para se passar com amigos ou em família. Para nós, é uma hora e dez minutos com amigos, amigos que também são família. Espero que para o público também”, deseja o encenador.

Cultura nos dois sentidos

A Ardemente é uma companhia sediada em Viseu e composta por pessoas de Viseu. Nas peças há a colaboração de artistas de outras cidades, como é o caso de Rafa Jacinto, de Lisboa. A companhia explora linguagens artísticas e questões com as quais a equipa se relaciona e que estão, muitas vezes, sub-representadas.

Fazer teatro com uma abordagem menos convencional no interior do país, admite Roberto Terra, é um “grande desafio, quer ao nível financeiro, quer ao nível de públicos e de portas que nos são abertas fora da cidade”. Mas é uma empreitada necessária. “As pessoas que fazem parte da companhia já saíram de Viseu, já voltaram para Viseu, e todos nós fomos percebendo que Viseu sente a falta de uma estrutura vibrante que possa trazer estas formas não tradicionais. Acho que ocupamos esse lugar em Viseu, e fazemo-lo com muito orgulho e com muito gosto.”

A companhia não limita o trabalho à cidade onde está instalada: além de outros destinos portugueses, já se apresentou no Brasil. “Esta simbiose e troca entre o interior e o que são os grandes polos culturais, nomeadamente Porto e Lisboa, é também muito importante para nós.”

Rafa Jacinto vinca que “há muito preconceito nas cidades grandes em relação ao trabalho que se faz no interior do país e noutras zonas mais periféricas”. “Claro que os grandes polos da cultura estão em Porto e Lisboa, mas é visto com desconfiança tudo o que vem de outras zonas do país, como se fosse pouco válido. É muito injusto e não tem fundamento”, lamenta.

Para que a cultura seja uma realidade além dos grandes centros culturais, é preciso começar a olhar de outra perspetiva. “Os grandes polos falam muito sobre a descentralização da cultura, mas na ótica de levar o que se faz no Porto e em Lisboa ao resto do país. Esquecem-se do reverso da medalha: a descentralização da cultura não é só isso, é pegar no que se faz no resto do país e apresentar no Porto e em Lisboa”, defende Roberto Terra. “É muito difícil isso acontecer.” Neste contexto, a Ardemente é uma exceção. “Temos a noção de que o que está a acontecer com este espetáculo, que já teve uma longa vida ao longo do ano, não é a norma das companhias sediadas no interior, que não circulam desta forma. Devia acontecer cada vez mais, porque há muita coisa boa que se faz por este país fora.”

Para a coprodução de “Oz ou a Estrada?” contribuíram o Teatro Municipal do Porto, o Teatro Viriato, o Theatro Circo, o Teatro Municipal da Guarda e o Centro Cultural de Lagos, onde agora deixa a ideia de que o que conta mesmo é o caminho que se faz.

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