Tem uma capa e páginas cheias de cor e ilustrações, e a linguagem é apropriada para crianças. Mas o livro “Porque é que os adultos são tão ceguetas?”, da autoria de Rita Guapo, é mais do que um novo exemplar da literatura infantil portuguesa. Destina-se também àqueles que já atingiram a maioridade e, no processo de crescimento, tenham adquirido filtros que tornam a realidade mais embaciada. A apresentação do livro está marcada para o dia 29 de março na Biblioteca Municipal de Lagos e conta com a presença da escritora.
Mas, afinal, porque é os adultos são tão ceguetas? “Este livro é mais um convite a procurar essa resposta do que propriamente a dá-la de uma forma direta”, esclarece Rita Guapo, que deixa, porém, uma pista. “Os adultos são muito ceguetas porque vão deixando de olhar o mundo com olhos de encanto e de primeira vez, e começam a ter respostas muito intelectualizadas e óbvias. Perdem um bocadinho a criatividade e a imaginação.”
Crescer significa que, por exemplo, as nuvens passam a ser só nuvens e deixam de ser tubarões, golfinhos ou montanhas. Dificilmente veremos num funil um chapéu para tapar carecas. A proposta literária de Rita Guapo pretende, através de uma pergunta que é uma provocação, recuperar o olhar dos adultos, até porque entende que os livros para crianças são sempre também para os crescidos da família. “Devem ser lidos por adultos por muitas razões e muito porque precisamos, enquanto adultos, de voltar a saber dizer ‘sim’ a todas as oportunidades que surjam de resgatar a própria infância e de olhar para a vida com esses olhos”, sublinha. “O ideal era que as crianças o lessem aos adultos”, aconselha a autora.
Perguntas e respostas
Psicóloga de formação, Rita Guapo faz consultas de aconselhamento parental. A parentalidade tem muito que se lhe diga e continua a ser um tema que, em termos sociais, é pouco trabalhado. “Sinto que é um apoio a que as pessoas recorrem muitas vezes já em desespero e não preventivamente”, conta. Pais e mães não se preparam com antecedência para “a tarefa mais desafiante da existência”, e há “muito pudor e até vergonha, que nascem da ideia de que devemos saber ser pais e mães”. A parentalidade “não tem nada de instintivo” e a psicóloga acredita que, “se se falasse mais sobre a necessidade de ajuda neste campo, seria mais fácil”.
A literatura infantil pode ser uma ajuda no exercício da parentalidade. O mercado está cheio de livros sobre temas específicos com abordagens para crianças. Mas não basta depositar uma obra em mãos pequenas – a literatura deve sobretudo “ajudar as crianças a continuarem a fazer todas as perguntas”, habilidade que dominam perfeitamente. Quanto aos pais, devem ajudar a encontrar, em conjunto, respostas que, muitas vezes, não sabem e que podem dar origem a outras perguntas.
“Achamos, enquanto adultos pais e mães, que a nossa principal função é corrigir, ensinar, dirigir, ou seja, temos de saber tudo. E isso é um grande disparate”, declara. No gesto de ler um livro com um filho abrem-se caminhos para muitas direções. “É uma força extraordinária que a literatura infantil pode representar nesta relação entre pais e filhos”, remata.


