Em 1654, o padre António Vieira pregou no Brasil um sermão com forte impacto social e político na relação entre colonos e comunidades indígenas, e que viria a ser o mais lido e celebrado da literatura portuguesa. Mais de 370 anos depois, continua a ser um texto de referência. A Co. N125 – Companhia Nacional 125, através da diretora artística e atriz Neusa Dias, foi beber ao eterno Sermão de Santo António aos Peixes inspiração para um espetáculo em que se disseca a mensagem e se invertem os papéis.
“Se os peixes falassem” sobe ao palco do Centro Cultural de Lagos no próximo dia 13. A peça não leva à cena o sermão de onde partiu, esclarece Neusa Dias. “É um texto original, escrito por mim, em que procuro ser fiel ao Padre António Vieira. Procuro respeitar as características fundamentais do texto, nomeadamente a dimensão alegórica, mas também a estrutura que organiza o sermão e as ideias essenciais que o compõem.” É, no entanto, “uma construção livre”.
A diretora artística tentou “dissecar o texto e encontrar o esqueleto, a linha matriz que o sustenta, perseguindo sempre a ideia fulcral de que é preciso preservar o bem e deitar fora o mau”. Numa alegoria em que peixes são uma metáfora dos homens, o Padre António Vieira aborda virtudes e vícios. “Nestes tempos tão sombrios aos níveis nacional e internacional, com a perda de referências sólidas que nos guiem, que nos deem a sensação de segurança, certezas e estabilidade, corremos o risco de surgirem umas figuras salvacionistas que prometem soluções simples para problemas complexos”, sublinha a diretora artística. “Creio que estamos num período da nossa contemporaneidade em que essa ordem e essa segurança já não podem ser as mesmas que conhecíamos até há uma década ou duas.”
Foi só quando mergulhou no sermão que Neusa Dias percebeu o quão atual é. Mas a encenadora decidiu alterar o lugar da fala. “Não temos a figura do padre, não temos a figura da autoridade moral, a figura da Igreja. São os peixes que falam.” Com esta inversão de papéis, pretende-se dar voz “àqueles que, durante séculos, foram silenciados e viram as suas identidades, culturas e histórias serem subalternizadas e marginalizadas – sejam eles povos, grupos sociais ou indivíduos.” A atriz vinca que “este poder de dar voz a quem antes não a tinha” não significa que se faça uma “glorificação ou santificação desses outros, pelo contrário”. É apenas o reconhecimento de que “todos nós somos humanos e estamos sujeitos a cometer erros”, diz.
“Se os peixes falassem” é um espetáculo de teatro que envolve também outras expressões artísticas, como as artes plásticas e a música tocada ao vivo.
Ferramentas para a arte
O projeto da Co. N125 vai além da apresentação de uma peça de teatro: é acompanhado por um trabalho de mediação, composto por três atividades diferentes, destinado a alunos do ensino secundário de Lagos, Loulé e Faro, municípios coprodutores do espetáculo.
A mediação começou com uma atividade à qual foi dado o nome “Monitor Feedback: O que faz falta”. A associação cultural foi às escolas e lançou um desafio, explica Neusa Dias: “Olhando para o mundo de hoje, se pudesses dar um sermão, a quem darias e o que dirias, e como o farias”. Deste repto resultou um concurso de sermões com trabalhos dos alunos. “Dá-me esperança ter jovens com idades entre os 16 e os 18 anos a identificarem tantos problemas no nosso mundo e a quererem encontrar soluções para os resolver.”
No segundo momento de mediação, aconteceu a “Preparação para Exame: Lado B”, uma fase em que se aproximam os alunos do espetáculo propriamente dito, “não com a intenção de lhes dizer o que vão ver, ou como devem entender o que vão ver, mas de lhes fornecer ferramentas para que possam aceder a uma leitura de camadas mais profundas”, conta a diretora artística.
A derradeira atividade de mediação decorre depois da apresentação do espetáculo. “Voltamos às escolas para a atividade ‘Monitor Feedback: Prova de Aferição’. A ideia é ajudarmos a tecer uma reflexão sobre a experiência cultural vivida e a construir um comentário crítico não só sobre as atividades de mediação, como acerca do espetáculo”.
A intenção da Co. N125 é ir dando aos alunos mais ferramentas para olhar para a arte. Neusa Dias faz um paralelismo com a aprendizagem da leitura: assim como se ensinam as letras, também é necessário dar meios para ser perceber a arte, seja ela em forma de teatro, dança, música, pintura ou escultura. “Aprende-se a ver, aprende-se a ler, mas para isso é preciso que as ferramentas que nos ajudam a ler e a ver nos sejam dadas, sem, no entanto, ditar ou impor uma leitura única.”



