A companhia de teatro Formiga Atómica apresenta no Centro Cultural de Lagos, nos dias 16 e 17 de janeiro, o documentário “Gaivotas em terra” e o espetáculo “Só mais uma gaivota”. As produções têm na origem a peça “A Gaivota” de Anton Tchékhov.
Foi com este texto que, em 2005, terminou a formação da turma do curso de Teatro da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) do Porto. O encenador e ator Miguel Fragata, que integrou esse grupo de 13 jovens atores, decidiu recuperar a obra do dramaturgo russo, com o intuito de encenar um clássico. Mas não foi isso que aconteceu: “A Gaivota” transportou-o para o passado, pelo que decidiu ir no encalço do presente.
O espetáculo “Só mais uma gaivota”, explica Miguel Fragata, nasce assim de dois eixos: Tchékhov e a realidade do próprio encenador. Há vinte anos, no momento em que ele e os colegas terminavam o curso, imaginavam o mundo que teriam pela frente enquanto artistas, atores e encenadores. “Curiosamente, ‘A Gaivota’, uma obra escrita no início do século XX, fala dos dilemas de um grupo de artistas, dos dilemas da criação, das angústias de atrizes e atores mais velhos e mais novos, de escritores que se deparam com as questões complexas da criação. Na altura, quando nos deparámos com o texto, sentimos que estava também a falar de nós de uma forma muito evidente, apesar de ter sido escrito há cem anos.”
O ator decidiu ir à procura dos antigos colegas de curso, para perceber o que lhes aconteceu. “Este projeto começa aí, começa no momento em que vou atrás dos meus colegas para tentar compreender quem são hoje, onde estão, por onde param, que vidas profissionais têm e de que forma é que isso correspondeu (ou não) às suas expectativas de há vinte anos”, conta.
Dos encontros com os antigos estudantes da ESMAE nasceu o documentário “Gaivotas em terra”. Miguel Fragata lançou uma série de perguntas sobre a vida, os sonhos, as expectativas, a maneira como os colegas se imaginavam em relação ao futuro e sobre as suas memórias daquele tempo. “O espetáculo bebe deste manancial, das narrativas reais que cada um deles partilhou comigo, criando assim um híbrido entre a ficção e a realidade, entre as personagens escritas por Tchékhov e estes atores que foram, naquele espetáculo de estudantes de Teatro, essas mesmas personagens.” Em palco estarão “várias camadas de ficção e de realidade”, num monólogo em que o ator convoca “estas presenças, estas pessoas, estes colegas e estas personagens”.
Para lá do palco
Do grupo de 13 estudantes de teatro, apenas três se mantiveram na área. “Há vinte anos, se perguntássemos a cada um deles qual era o seu sonho, todos eles responderiam que era trabalhar em teatro. É evidente que existe uma dimensão nostálgica e melancólica” no documentário. Porém, “há qualquer coisa que é profundamente natural, na medida em que são caminhos completamente inesperados aqueles que muitos seguiram, fruto de um acaso que não poderíamos imaginar, e que em muitos casos foram totalmente ao encontro daquilo que fazia sentido para as pessoas”, ressalva o encenador.
Apesar de o projeto estar centrado num grupo de antigos alunos de Teatro, Miguel Fragata acredita que é também “um retrato transversal do mundo” por acompanhar duas décadas de profunda transformação. “Esta é a geração das pessoas que estão na casa dos quarenta anos e é, provavelmente, a última a lidar com uma série de expectativas que foram profundamente contrariadas com eventos mundiais como o 11 de setembro de 2001 e a grande crise do início de 2008. É a primeira geração que acaba por não ter uma expectativa de vida melhor do que a geração anterior”, observa. Tanto o espetáculo, como o documentário abordam estas questões.
Com texto de Inês Barahona e Miguel Fragata, e excertos de “A Gaivota” de Tchékhov (na tradução de Fiama Hasse Pais Brandão), “Só mais uma gaivota” estreou-se no Centro Cultural de Belém em setembro passado. Teve já impacto no trabalho da companhia: a Formiga Atómica quer desenvolver mais relações de diálogo com os clássicos. A companhia de teatro tem dado espaço a criações contemporâneas, mas Miguel Fragata sente que é importante voltar aos “autores que por cá andaram antes de nós”. “Sentimos essa necessidade porque, enquanto sociedade, estamos cada vez mais órfãos dessas memórias, das narrativas que, de alguma forma, estruturaram a nossa civilização e a nossa forma de olhar para o mundo”, defende. É preciso pousar em terra para se poder voar, como fazem as gaivotas.




