O Dia Mundial da Língua Portuguesa celebra-se na Biblioteca Municipal de Lagos com o espetáculo poético “Uma língua sem papilas”, de Paulo Condessa. Promete-se uma sessão sem barreiras nem formalismos, com poesia para ser sentida por todos os que a quiserem abraçar.
Declaração prévia: Paulo Condessa, o diseur do espetáculo poético marcado para o dia 9 de maio na Biblioteca de Lagos, não alinha em modelos convencionais. Aconselha-se assim o público que for ver “Uma língua sem papilas” a deixar as expetativas à porta, para que o lado emocional esteja bem desperto.
Condessa não faz declamação ou recitação. “Será o mais parecido com o diseur, com ‘dizer’, mas a ideia é que seja uma performance onde tento estar ali inteiro”, explica. “Não uso só o lado racional do cérebro, mas sim todo o corpo, as emoções, gestos, sons e ritmos – ou não, para as coisas mais suaves e ‘parecidas com o normal’.”
O também poeta e escritor contextualiza todos os poemas que diz e o espetáculo de Lagos, uma “situação particular” que comemora o Dia Mundial da Língua Portuguesa, não foge à regra. “A contextualização é uma forma de aumentar a ligação com o público. Às vezes até há troca de impressões, quando as pessoas fazem comentários, e só depois é que digo o poema”, refere.
Esta contextualização pode ser sobre o tema, o autor ou a razão da escolha dos poemas. “Neste caso, sendo o dia da língua materna, com todo o lado psicológico, a nossa ligação aos primeiros sons e às primeiras palavras que ouvimos, há muito esse lado emocional.” A seleção da poesia “é muito díspar”: vai de poemas que “são do nosso cânone a outros de autores quase desconhecidos; às vezes tem coisas estranhas, sons, entoações…”.
Não obstante o “cuidado e a atenção” que Paulo Condessa precisa de ter quando está a dizer poemas, o espetáculo é informal. “Podemos trocar impressões, sobretudo na Biblioteca de Lagos que tem uma sala muito intimista e acolhedora”, característica importante para criar uma relação próxima com o público.
Despir a poesia do seu lado formal é a melhor forma de a tornar comum, concorda o diseur. “Na minha abordagem, é o que faço. Para já, o que me interessa são pessoas e depois, dentro das pessoas, a relação entre elas, darmo-nos bem e partilharmos coisas interessantes, por serem belas ou cativantes, ou entusiasmantes, ou o que for. Dentro disso está a poesia, que foi a área em que me especializei mais, mas com base nesta questão das relações.”
Paulo Condessa trabalha com públicos muito diferentes. Já disse poesia em fábricas ou em prisões. Para que a comunicação seja possível, defende, “temos de ir ao nível ou ao local onde essa pessoa está e trazê-la até nós, não é gritar-lhe de longe ‘vem aqui’, porque ela pode não vir”. É no ato de ir ao encontro que se cria a possibilidade de haver um caminho conjunto.
Do lado de quem ouve tem de haver disponibilidade, para que o lado emocional funcione. “Os autores dos poemas são pessoas como nós, os poemas são sobre coisas que alguém pensou ou sentiu, e todos nós pensamos e sentimos todos os dias. Há uma margem de ligação óbvia.”
Muitos milhões
Desde 2019 que o Dia Mundial da Língua Portuguesa se assinala a 5 de maio, por decisão da UNESCO. A data tinha sido já estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas.
Estima-se que existam mais de 265 milhões de falantes de português espalhados por todos os continentes, sendo a língua mais falada no hemisfério sul. A UNESCO destaca que o português continua a ser, hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e uma língua com uma forte extensão geográfica, destinada a aumentar.


