Lagos teve um papel determinante nos Descobrimentos, mas também enquanto cidade militar. Foi a capital do Reino do Algarve até 1755, ano do terramoto de Lisboa, que reduziu a escombros parte significativa da urbe. Recuando um século, contribuiu para que Portugal voltasse a ser português. Henrique Correia da Silva, o então Governador das Armas do Reino do Algarve, é uma figura central nesta história.
No dia 1 de dezembro de 1640, um golpe palaciano, protagonizado por nobres e letrados, restituiu o governo à Casa de Bragança. Portugal estava unido a Espanha desde 1580, uma união dinástica que começou por ser pacífica. Mas, três reis depois, com a Corte de Madrid afastada das necessidades portuguesas e com o país a empobrecer, houve quem tivesse decidido que tinha chegado a hora de recuperar a independência.
“Os conspiradores saíram à rua e dominaram a guarda do Palácio Real. Executaram o secretário de Estado Miguel de Vasconcelos atirando-o pela janela para o Terreiro do Paço”, recorda o historiador Artur de Jesus. “O Duque de Bragança foi então aclamado como Rei D. João IV. É a Restauração da Independência portuguesa face a Espanha. Não foi imediata”, acrescenta. Seguiu-se uma longa e violenta guerra de 28 anos contra Espanha, à época uma fortíssima potência militar.
Longe de Lisboa estava Lagos. Ao contrário de Miguel de Vasconcelos, partidário dos espanhóis, o Governador do Reino do Algarve não hesitou no apoio a D. João IV. “No dia 11 de dezembro de 1640, dez dias depois da revolta em Lisboa contra os espanhóis, o Governador mandou reunir as autoridades locais na Igreja da Misericórdia, a atual Igreja de Santa Maria, na Praça Infante D. Henrique. Assistiram à missa do Espírito Santo e, a seguir, foi lida uma carta do Governo de Lisboa. Foram dados vivas ao Rei D. João IV e houve um grande entusiasmo na cidade.”
Henrique Correia da Silva contribuiu ainda para o fortalecimento da fronteira com Espanha: organizou um corpo com dois mil homens que enviou para Castro Marim, no Algarve Oriental. Por esta altura, ficou ainda determinada a celebração anual de uma procissão comemorativa da aclamação do Rei D. João IV.
Um rei para dois feriados
A toponímia de Lagos celebra Henrique Correia da Silva através de uma rua junto à Igreja de Santa Maria, que vai desembocar no Museu, na Igreja de Santo António, ao lado do Armazém Regimental. “É importante perceber que os grandes acontecimentos nacionais e, nalguns casos, internacionais também tiveram o seu reflexo em Lagos, neste caso, na capital do Reino do Algarve. Por isso mesmo, Henrique Correia da Silva merece ser lembrado nesta data, na Restauração da Independência portuguesa”, afirma Artur de Jesus.
Os acontecimentos de dezembro de 1640 continuam a fazer com que o dia 1 seja feriado, para que a história não se perca quase 400 anos depois. Na semana seguinte, temos mais um feriado – o Dia de Nossa Senhora da Conceição – que está ligado ao do primeiro dia do mês e à mesma figura histórica.
“O Rei D. João IV, em 1654, ofereceu em Vila Viçosa a coroa de Portugal à Nossa Senhora da Conceição. A partir daí, já não houve coroações de reis em Portugal; houve só aclamação, mais nenhum rei é representado coroado. A rainha é a Virgem, a Nossa Senhora da Conceição”, explica o historiador.
D. João IV morreu dois anos depois, ainda corria a Guerra da Restauração. A paz chegou só em 1668, já com D. Pedro II no trono, e a assinatura de um tratado no qual a Espanha reconheceu a independência de Portugal.

