Dois capitães, um major e um pelotão sem munições. A Revolução dos Cravos no Algarve fez-se a partir de Lagos, à época o quartel com menos importância operacional. E, por um dia, o alto da Fóia foi a capital tailandesa.
São as imagens de Lisboa que vemos quando pensamos no 25 de Abril de 1974, mas o movimento que pôs fim a 48 anos de Estado Novo desdobrou-se por todo o país – e por todo o país houve militares a executar tarefas que se revelaram essenciais para o sucesso da revolução.
No caso do Algarve, as operações tiveram origem em Lagos. Dos três quartéis da região, o Centro de Instrução de Condução Auto n.º 5 (CICA 5) em Lagos era o menos relevante do ponto de vista operacional, mas estavam ali os três militares que aderiram ao Movimento das Forças Armadas (MFA): o major Carlos Branco, e os capitães Glória Alves e Ferreira Lopes.
“Nas vésperas do 25 de abril, tinha havido ordens para exercícios de campo. Os militares de um pelotão da unidade estavam a descansar dessas manobras na madrugada do 25 de abril quando foram acordados pelos dois capitães, que os informaram do que se estava a passar”, relata o historiador Artur de Jesus. “Os homens aderiram; não levantaram qualquer objeção.”
Só os dois capitães estavam armados. “Os restantes homens estavam em exercícios, tinham as espingardas com eles, mas não tinham as munições, que tinham ficado no quartel”, conta o historiador, citando Ferreira Lopes. Um episódio curioso que não deixa de ser, com alguma ironia, um prenúncio de uma revolução que, a sul, não conheceu qualquer incidente.
Aos capitães Glória Alves e Ferreira Lopes foi confiada a ocupação de “Bangkok”, nome de código para o objetivo, que consistiu na ocupação do alto da Fóia. “É o ponto mais alto da serra de Monchique e o objetivo era controlar as comunicações, que ainda hoje estão lá situadas”, explica Artur de Jesus. “As antenas eram repetidores da GNR, da Guarda Fiscal e das autoridades a nível regional, e também de comunicações, de rádio e de televisão.” Quando chegaram à serra, estava lá um técnico a fazer manutenção das antenas, que ajudou no processo.
Missão concluída com sucesso, os dois capitães foram obrigados a apresentarem-se em Faro, chamados pelo brigadeiro Prazeres, “e lá estiveram praticamente sob detenção até ao final do dia 25, quando se percebeu que haveria uma mudança de regime já irreversível”. Regressaram depois ao quartel e “a uma nova vida do país”.
Cautela e festa
Os quartéis de Faro e de Tavira não aderiram à ação, mas também não foram registados episódios que colocassem em causa a iniciativa do MFA. “Não houve nenhuma tentativa de parar a revolução”, assinala o historiador. “A tomada de Bangkok evitou também que, em caso de reação, houvesse comunicações” entre Lisboa e as autoridades do Algarve.
A cautela de muitos militares em relação aos acontecimentos do dia 25 justificava-se pelas características do regime e por acontecimentos então recentes: pouco mais de um mês antes, tinha havido a “Revolta das Caldas”, rapidamente resolvida pelas autoridades.
O clima de incerteza marcou também a reação da população. “No dia 26, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) em Portimão ainda foi trabalhar, fazer a sua vida normal. Depois é que se acabou com essa realidade.” Em Lagos, só no dia 27 de abril é que as pessoas saíram à rua e festejaram o início de um novo capítulo da história portuguesa.
Entre os vários momentos programados pelo Município de Lagos para comemorar o dia em que Portugal conheceu a liberdade, está uma visita guiada por Artur de Jesus a espaços que foram percorridos pela população no dia 27 de abril. “Vamos às zonas das muralhas e do Forte Ponta da Bandeira, e à porta do Quartel, que hoje é a Messe Militar, junto ao Arco de São Gonçalo”, elenca. “Vamos lá fazer uma paragem para evocar tudo isto. Passaremos também pelo busto do capitão Salgueiro Maia, a figura emblemática do 25 de abril.”


