O Clube de Leitura de Lagos inicia um novo ciclo a 23 de abril, data em que se assinala o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Para os próximos 11 meses, foram escolhidas obras escritas em português, para sessões mensais em que o amor à literatura é o que mais conta.
Existe uma dupla razão para serem obras escritas em língua portuguesa: José Garrido, o novo programador/moderador do Clube de Leitura de Lagos, considera que, hoje em dia, as traduções literárias deixam muito a desejar, o que lhe causa uma espécie de “alergia pessoal”; por outro lado, em Portugal têm sido publicadas obras “muito boas” que importa resgatar.
A nova temporada do Clube de Leitura está integrada na Festa do Livro, momento em que, na Biblioteca Municipal Júlio Dantas, haverá leituras em voz alta e música. O livro inicial deste novo ciclo, “Morreste-me”, é de José Luís Peixoto. Publicado em 2000, tem a morte do pai e o processo de luto no centro da narrativa, e foi o primeiro romance do escritor – aquele que o catapultou para uma carreira literária de sucesso em Portugal e no estrangeiro.
O título de Peixoto é o primeiro de 11, numa seleção que não foi fácil, dada a quantidade de livros disponíveis. “Não se pode tocar em tudo, mas como tinha essa oportunidade, quis que fossem obras portuguesas e recentes, mas não as de ontem”, explica José Garrido. “Também na literatura faz falta um teste de tempo. É preciso lermos e repousarmos sobre a leitura.” A lista selecionada pelo programador foge assim “à última novidade, à última coisa que o marketing empurrou”.
Dada a necessidade de definir um período, a lógica foi “o bug do milénio, aquele de que toda a gente tinha muito medo”. Da edição literária pós-2000, foram escolhidos “A Cinco Palmos dos Olhos”, de Carlos Campaniço; “O último avô”, de Afonso Reis Cabral; “Um Amigo para o Inverno”, de José Carlos Barros; “Baiôa sem data para morrer”, de Rui Couceiro; “A Boneca de Kokoschka”, de Afonso Cruz; “Eliete – A vida normal”, de Dulce Maria Cardoso; “Índice médio de felicidade”, de David Machado; “Corações de papel”, de Fábio Ventura; “O último papa”, de Luís Miguel Rocha; e “Rio das flores”, de Miguel Sousa Tavares. Algumas destas sessões contarão com a presença dos autores.
O livro como aproximação
José Garrido vive no Algarve há mais de 30 anos. Leitor ávido, a paixão pelas letras estende-se à escrita, com textos curtos e outros longos, sendo autor de dois romances. É um participante ativo de eventos literários e de clubes de leitura – integra o de Lagos há já vários anos.
Sobre as reuniões mensais na Biblioteca Municipal Júlio Dantas, o novo programador explica que se trata de um clube aberto, qualidade “muito interessante que deve ser acarinhada e mantida”. Para se assistir a uma sessão, basta aos interessados a inscrição prévia na Biblioteca. Depois, é só aparecerem, não sendo obrigatória qualquer apresentação.
“A expectativa é que tenham lido o livro [em análise na sessão]”, diz José Garrido. “Há um ‘núcleo duro’ que acompanha a atividade do clube há anos e os ‘caloiros’ são muito bem-vindos. Existe uma dinâmica interessante no Clube, pelo facto de haver pessoas novas que aparecem e estão o tempo que querem”, ou seja, vão às sessões que mais lhes interessam, sem que lhes seja exigida assiduidade.
Além da diversidade de pessoas no clube, o moderador destaca os participantes de origem estrangeira, que não têm o português como língua materna, “lendo as obras connosco em português e depois participando no debate, o que acho fantástico”. O objeto literário funciona como elemento de aproximação entre diferentes culturas. Tratando-se hoje de uma realidade em muitas bibliotecas do país, os clubes de leitura estimulam o interesse pelos livros e ajudam nas opções literárias, sem que essas escolhas sejam feitas como noutros tempos, em que “figuras importantes escreviam nos jornais de referência e nos diziam o que era bom e o que era mau”. Neste processo de democratização das sugestões de leitura, procura-se o equilíbrio que, em Lagos, está agora centrado em livros escritos em Portugal no último quarto de século.


