A gravura era, dizia Paula Rego, “um descanso da pintura”. Desse exercício de uma certa liberdade, do regresso ao desenho que nasce diretamente da imaginação, nasceram histórias a partir de outras histórias, revisitadas e reinventadas por uma das mais importantes artistas portuguesas.
Paula Rego (1935-2022) ocupa um lugar único na arte contemporânea nacional. Nascida numa família anglófila, estudou em Londres (1951-1956), cidade na qual se fixou definitivamente em 1974. Desenvolveu uma abordagem inconfundível, em que a literatura e os contos populares portugueses serviram de base a obras de estilo figurativo-representacional.
Até 27 de setembro, o Centro Cultural de Lagos acolhe a exposição “Terra do Nunca”, composta por três séries de gravuras, e outras obras relacionadas com contos tradicionais e contos de fadas. Ali encontramos Peter Pan, na série que empresta o título à exposição, o Príncipe Porco e A Cruzada das Crianças. São imagens que convidam a pensar – a obra de Paula Rego é plena de significados, “leva-nos a universos imaginários muito peculiares”, observa Catarina Alfaro, coordenadora da Programação e Conservação da Casa das Histórias Paula Rego/ Fundação D. Luís I.
A exposição transporta-nos para “um universo que tem que ver com a infância, com a nossa forma de aprendermos também através dos contos tradicionais, dos contos de fadas”, afirma a curadora. “Esse encontro com a infância, com os medos e com a irrealidade própria da infância, com essas histórias que nos levam a mundos irreais e, ao mesmo tempo, cheios de fantasia, pode ser um bom encontro connosco.”
A gravura permite contar histórias de uma forma diferente, “porque se desmultiplicam”. Catarina Alfaro ressalva que Paula Rego também o fez na pintura, com obras que se relacionam com fontes literárias. Mas a gravura permitia-lhe “ir a partes da história, reinventá-la, salientar aspetos, dar uma visão diferente”. A possibilidade de fazer vários múltiplos tornou o trabalho da artista mais acessível a colecionadores, a galerias e a museus, o que faz com que hoje mais pessoas possam conhecer o trabalho de uma mulher que não se considerava pintora, mas sim “desenhadora”.
“A gravura, de facto, significava voltar a desenhar. Desde pequena que desenhava. Desenhar numa chapa de pequenas dimensões, numa chapa de cobre ou de zinco, era um descanso da pintura, como ela dizia.” Catarina Alfaro contextualiza: o processo de trabalho de Paula Rego era muito complexo porque, a partir dos anos 1990, encenava tudo em estúdio, só pintava o que via. Quando regressava à gravura afirmava que “estava a olhar para dentro e não para fora”. “A mão é guiada pela imaginação, deixava-se levar pelo lado mais imediato do desenho que, para ela, era o que contava”. No exercício desta técnica está “o processo criativo mais íntimo” de Paula Rego.
Salas de Exposições 2 e 3 do Centro Cultural de Lagos
Até 27 de setembro
3.ª a sábado | 10h00-18h00
