A dança que atravessa os montes
A dança que atravessa os montes

A dança que atravessa
os montes

É preciso andar para lá chegar: as terras de Miranda do Douro ficam longe, a beijar Espanha. Ali canta-se português, fala-se a outra língua oficial de Portugal, ouvem-se gaitas de foles e dança-se em forma de ritual, movimentos que se fazem de homens e paulitos, e cuja origem se perde no tempo.

Há quem diga que a dança nasceu na Transilvânia; outros julgam que se deve aos povos que passaram pelas paisagens maravilhosas no século III. A coreografia também é atribuída aos gregos; encontram-se semelhanças com danças populares no sul de França e com a medieval dança dos suíços. Aos romanos atribui-se a importação do ritual. Foi dança de guerra e passou a celebração de colheitas. Certo é que se trata de um fenómeno ibérico que, em Portugal, permanece vivo e de saúde: as danças dos Pauliteiros de Miranda fazem parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Foi a pensar neste universo muito peculiar que surgiu a encomenda do Teatro Municipal de Vila Real à Companhia Instável. A estrutura de dança contemporânea, sedeada no Porto, convidou Clara Andermatt para o projeto: a coreógrafa tem uma identidade artística singular, “marcada pelo cruzamento de culturas, linguagens e pela vontade de trabalhar com diferentes corpos e percursos”. Precisamente por isso, entende a Companhia Instável, “a pessoa ideal para dar vida a esta criação”. O Centro Cultural de Lagos associou-se como coprodutor do espetáculo, que dá pelo nome Do Terreiro ao Mundo.

No contexto da preparação do projeto, Clara Andermatt esteve em Miranda do Douro, num trabalho de pesquisa necessário para compreender não apenas as características das danças, mas de todo um espaço e de uma forma de ser. “Contactámos com pessoas, vimos grupos de pauliteiros e de pauliteiras, fomos a vários locais onde a manifestação dos pauliteiros é muito forte e presente, a outros em que já lá não estão. Falámos com as pessoas mais idosas, com musicólogos, como o Mário Correia, que tem um trabalho bastante aprofundado sobre os pauliteiros, fizemos recolhas literárias”, descreve a coreógrafa.

Foi deste exercício de observação e pesquisa que se partiu para a criação, para o trabalho em estúdio. Clara Andermatt quis que os bailarinos aprendessem algumas danças, para compreenderem a parte técnica e coreográfica, “a raiz, a métrica coreográfica, musical, matemática”. “Foi muito importante para, a partir daí, voar na imaginação, voar na criatividade”, mantendo a raiz, “porque é importante que se reconheça e, quem conhece as danças, percebe tudo o que está ali, percebe a origem da dança e a transformação”.

Palco de vida

Imprimir contemporaneidade ao que vem do passado é um desafio, mas “é ao mesmo tempo um ato bonito e rico de transformação, poder aliar a tradição a uma viagem criativa que vai para além da coreografia”. Clara Andermatt sublinha que o espetáculo extravasa a dança dos pauliteiros: “Vai para a vida, para onde as pessoas estão, vai para aquela terra, para aquela riqueza e particularidade de onde as pessoas são”. Num trabalho com uma dimensão colaborativa muito grande, o mais interessante para todos os envolvidos foi a possibilidade de aproximação a uma manifestação cultural única.

Quem for ver o trabalho de Clara Andermatt e da Companhia Instável vai encontrar em palco mais do que um conjunto de corpos que dançam. “A peça tem um lado musical fortíssimo e tem um lado teatral também bastante forte. Gosto de jogar com esses elementos todos”, explica. “O meu trabalho tem essa componente emotiva, teatral e musical muito marcada, são elementos que ajudam a desenvolver a dramaturgia da peça.” A peça não se fez da soma de coreografia, teatralidade e música. “Nasceu com esses elementos todos, porque queríamos fazer essa viagem por Trás-os-Montes”, uma viagem ao Reino Maravilhoso de Miguel Torga, “texto lindíssimo” que também serviu de inspiração à coreógrafa.

Em palco estão seis intérpretes – quatro bailarinos e dois músicos –, que constroem um diálogo entre corpo, gesto e som. A composição musical é de Luís Pedro Madeira e Clara Andermatt. Luís Pedro Madeira é multi-instrumentista, professor de Educação Musical, compositor e produtor, natural de Coimbra. Os figurinos são de Gabriela Gomes, artista plástica e investigadora.

Desde 1999 que, todos os anos, a Companhia Instável dá vida a uma nova criação, desenvolvida por um coreógrafo de referência, nacional ou internacional, e interpretada por bailarinos escolhidos em audições abertas. Apresentou obras de criadores como Wim Vandekeybus, Rui Horta, Madalena Victorino, Victor Hugo Pontes, Hofesh Shechter, Joana Providência, Tiago Rodrigues, Mafalda Deville, Helder Seabra, São Castro e António M Cabrita, entre muitos outros. Este ano, o desafio foi então lançado a Clara Andermatt, considerada uma das pioneiras da nova dança portuguesa, criadora de mais de meia centena de peças apresentadas em Portugal e no estrangeiro.

A estreia de Do Terreiro ao Mundo aconteceu em Vila Real, no passado dia 13. Inicia circulação em território nacional com apresentação em Lagos a 26 de setembro, no Centro Cultural, às 21h30.

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