A história serve-se à mesa
A história serve-se à mesa

A história serve-se à mesa

No século XIII, havia pesca da baleia. Mas, muitos anos antes, já os recursos do mar em Lagos eram explorados por quem dava à costa: os romanos souberam aproveitar o que de melhor as ondas traziam. Em Bensafrim, as abelhas não são novidade: há mais de 300 anos que ali se produz mel.

São histórias como estas aquelas que se contam no mais recente livro do historiador Artur de Jesus, escrito com a colaboração da nutricionista Fabiana Duarte. Lançado na edição deste ano da Feira do Livro de Lagos, “Os Alimentos na História e na Cultura de Lagos” destina-se “a crianças, jovens e, por inerência, às próprias famílias, porque temos a experiência de que muitas vezes as crianças levam as novidades que aprendem para casa e acabam por ser um veículo de conhecimento para os pais”, afirma o autor.

Esta obra, ilustrada por André Pereira, está enquadrada num projeto da Câmara Municipal de Lagos que tem como grande objetivo divulgar a história do concelho junto dos alunos das escolas, sobretudo dos mais pequenos. Em 2023, surgiu a primeira publicação – acerca da história de Lagos em geral –, e seguiram-se mais dois livros: um sobre a ligação do Rei D. Sebastião à cidade e outro sobre as localidades do concelho.

“Queremos tentar levar a história aos mais novos, chamar a atenção para a importância da sua terra, para se sentirem do ponto de vista identitário gentes de Lagos. É lançar sementes para o futuro”, explica Artur de Jesus. “Fazemos um esforço para que percebam que a sua terra tem um passado importante que merece ser defendido, que fazemos parte dessa continuidade geracional que está para trás de nós e que temos a responsabilidade de passar esta herança cultural para o futuro.”

O historiador defende que é importante transmitir que a cultura assume diferentes formas: não se resume a edifícios, museus, espetáculos e concertos. “O que comemos, a maneira como comemos e os nossos hábitos de viver são eles próprios uma herança cultural e são cultura”, declara.

Do que o mar oferece ao que se colhe no campo, das cataplanas aos doces finos, o livro inclui ainda informação sobre a importância dos alimentos e das boas práticas alimentares. Ensina, por exemplo, a preparar uma lancheira saudável, com produtos típicos do concelho.

Lagos é historicamente um ponto de chegada e de partida, resultado do encontro de múltiplos povos. Se, para as crianças naturais da região, publicações como esta ajudam a perceber de onde vêm, para os miúdos de outras origens é um instrumento importante para compreenderem onde estão. O livro encaixa-se assim também numa lógica de integração que a autarquia tem vindo a desenvolver.

“O mundo sempre foi multicultural e nós sempre fomos uma realidade multicultural. Um português é o resultado dos romanos, dos gregos, dos fenícios, dos cartagineses, dos muçulmanos, dos germânicos, de toda a gente que esteve aqui antes, e mais tarde veio gente de África”, sublinha Artur de Jesus, acrescentando que também a alimentação é prova do contacto histórico de diferentes povos. “A história pode precisamente ajudar a mostrar que esse é o caminho e que se pode conviver, não repetindo erros do passado, mas sobretudo aprendendo com as virtudes que o passado também tem.”

Artur de Jesus é licenciado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa e Técnico Superior de História da Câmara Municipal de Lagos. Fabiana Duarte é licenciada em Dietética e Nutrição pela Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra e técnica da Câmara Municipal de Lagos.

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