Al-Mutamid | Música para sonhar e abrir mentes
Al-Mutamid | Música para sonhar e abrir mentes

Al-Mutamid | Música
para sonhar e abrir mentes

Houve um tempo em que, na Península Ibérica, conviviam três culturas monoteístas, com crenças, hábitos e tradições bem distintos. Também na música – quer na prática e contexto composicionais, quer nos instrumentos usados – as diferenças eram grandes. Foi para celebrar a diversidade entre as músicas judaico-sefardita, medieval cristã e árabe-andalusina que, há 26 anos, nasceu o Al-Mutamid, o festival de música itinerante mais antigo de Portugal.

O nome do evento vem de um rei poeta. Al-Mutamid nasceu em Beja, em 1039, e aos 12 anos tornou-se governador de Silves, localidade onde descobriu a sua veia poética. Entre guerras e paixões, foi um dos poetas mais importantes de Al-Andaluz. Morreu perto de Marraquexe, depois de quatro anos em que, reza a história, se terá dedicado à escrita em forma de poema.

O epicentro do festival é o Algarve, explica João Pedro Vieira, da Ibérica Eventos & Espetáculos, responsável pela organização de uma série de concertos que, anualmente, percorrem várias cidades algarvias, e também Santiago do Cacém, Beja, Leiria e Almada. “Lagos está desde a primeira edição e de forma ininterrupta”, conta. Na edição de 2026, o programa previsto para Leiria foi cancelado devido à tragédia que assolou a cidade e o distrito. “O objetivo é percorrer toda a geografia que, aquando do nascimento de Al-Mutamid, era o território [hoje nacional] então denominado Al-Andaluz, e que era delimitado mais ou menos de Coimbra até ao Algarve. É a esse território que nós, de forma itinerante, levamos vários espetáculos diferentes.”

A curadoria musical faz-se em torno das sonoridades das três culturas monoteístas do Mediterrâneo, do Mediterrâneo Oriental, do Médio Oriente e do Magreb. Este ano, no dia 21 de fevereiro, data em que o Festival Al-Mutamid está no Centro Cultural de Lagos, sobe ao palco o 1001 Nights Ensemble. “É uma estreia nacional e faz uma fusão interessante entre a música persa e a música árabe oriental. Este grupo inspirou-se nas sonoridades das latitudes onde decorrem algumas histórias compiladas nos clássicos da literatura mundial As Mil e Uma Noites”, explica João Pedro Vieira. O grupo faz-se acompanhar por uma bailarina que interpreta dança persa e dança oriental. “É um espetáculo muito interessante que transporta os espectadores para o imaginário dessa obra literária”, diz. O concerto conta já com casa cheia, como é norma sempre que o Al-Mutamid passa pela cidade.

Quando o festival surgiu, em 2000, viviam-se tempos diferentes. “Ainda não tínhamos este quadro que vemos em Portugal, na Europa e ao nível mundial com o ódio crescente em relação à imigração. Há 26 anos, em toda a Europa, realizavam-se imensos festivais de música étnica e de música do mundo”, salienta o responsável. Hoje, os concertos do evento continuam a estar esgotados, mas a organização sente que o contexto mudou, pelos comentários “tristes e bastante desagradáveis em relação aos países de onde os músicos vêm” que, de vez em quando, aparecem nas redes sociais do festival. Não bastam, porém, para desviar o percurso do Al-Mutamid.

“O festival tem um caminho: o objetivo é dar a conhecer músicas que para nós, ocidentais, ainda continuam a ser muito desconhecidas. A música é uma excelente maneira de abrir mentes, dar a conhecer e aproximar, não de dividir”, nota. “Este festival não tem qualquer conexão política, nem pretendemos que tenha, é apenas para divulgar sonoridades que, durante séculos, fizeram parte do nosso território”, vinca João Pedro Vieira. Em Lagos, este ano, a música serve para sonhar com destinos distantes e com histórias contadas pela bela e inteligente Sherazade.

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