Cabe sempre mais um
Cabe sempre mais um

Cabe sempre mais um

Os donos da casa são dois gatos que, de repente, passam a ter de partilhar o espaço e a vida com um cão. O novo hóspede não se importa de fazer vida de gato, mas os moradores mais antigos, como felinos que são, desconfiam do novo elemento do agregado familiar. E eis que se coloca a pergunta: “Cabe mais um?”. Cabe sempre.

O espetáculo para crianças (e adultos também) que sobe ao palco do Centro Cultural de Lagos no próximo dia 19 é mais uma produção do projeto Boca Aberta, uma iniciativa que resulta do Teatro Nacional D. Maria II e da Fundação la Caixa, em colaboração com o BPI, e em parceria com o Plano Nacional das Artes e os Municípios de Lagos, Ourém e Ponte de Lima.

Nascido em Lisboa, o Boca Aberta conta já com dez anos de vida – entretanto descentralizou, saiu da capital e passou a estar em cidades de menor dimensão. “É muito interessante levá-lo a outros pontos do país. Tivemos sempre essa vontade desde o início, mas não houve possibilidade, porque as escolas de Lisboa eram muitas e não havia tempo para ir a outros locais”, explica Catarina Requeijo, encenadora das peças escritas por Inês Fonseca Santos e Maria João Cruz.

Este ano, artistas de Lagos, Ourém e Ponte de Lima foram desafiados a participar na criação de duas novas produções Boca Aberta, que partem de um mesmo tema. Os espetáculos Cabe mais um? e Não se pode! Não se pode! começaram por ser apresentados nas cidades de origem dos respetivos artistas. Na reta final do ano, viajam pelas outras cidades parceiras. Lagos já mostrou a peça Não se pode! Não se pode!; agora recebe a produção de Ourém.

Cabe mais um? segue a lógica que tem marcado a vida do Boca Aberta, que acompanha necessidades e alterações sociais. A arte não dá respostas: faz perguntas. “Questionamos o mundo em que vivemos, sempre de uma maneira que as crianças possam perceber. Falamos de cães e de gatos; no fundo, do que queremos falar é das diferenças”, afirma a encenadora. “São as diferenças de hábitos, as diferenças entre estas duas espécies que, apesar de tudo, e de haver um lugar-comum de que cães e gatos não se dão bem, se calhar até podem dar-se bem. É uma questão de pôr de lado este pré-conceito.”

Pernas para andar

A ideia de proximidade, de levar a arte onde está o público mais novo, permite ainda chegar a outro alvo: os agentes de educação (ou “as agentes, porque são quase sempre mulheres”). “São pensados para as educadoras, as auxiliares, para as assistentes que trabalham nas escolas”, sublinha a encenadora. São elas que permitem também perceber que a ida do teatro à escola tem um impacto positivo no quotidiano das crianças.

Quanto ao público para o qual se destinam os espetáculos do Boca Aberta, é o mais sincero que existe. “Às vezes não gostam. E podem não gostar”, aponta a encenadora. “Há uma coisa que dizemos sempre no início: podem rir – porque há muito aquela ideia de que as crianças não se podem rir –, podem chorar, podem ter medo, podem aborrecer-se. O teatro é para sentir alguma coisa.” Se assim não for, “não vale a pena”.

Porque há sempre espaço para mais, o Teatro Nacional D. Maria II tem vontade de que este trabalho prossiga – poderá, no entanto, ser feito noutros moldes. Em 2025, contou com atores locais dos municípios parceiros. “A ideia é que, no próximo ano, possa continuar, mas num processo de emancipação destas equipas.” Recuarão encenadora, cenógrafo, figurinista, para que “cada vez mais sejam estas pessoas a conseguir criar um projeto de raiz e mantê-lo nestes locais, para estas comunidades”.

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