Se andar por Lagos entre os dias 16 e 21 de março, não se espante se alguém lhe oferecer um postal com um poema. A Biblioteca Municipal assinala o mês mais poético do ano com a iniciativa “deixa que os meus olhos te leiam”, distribuindo poesia pela cidade. Dentro de portas, há palavras únicas ditas por mulheres.
Pode ser Manuel António Pina, que entrou “no amor como em casa”, ou Fernando Pessoa, que dividiu o nome “Salazar” e constatou que “é feito de sal e azar”, com as naturais consequências destas palavras. Também pode cair em sorte Adília Lopes, que nos garantiu que as pessoas, se não são boas, “não prestam”, ou Florbela Espanca, que sempre soube que “ser poeta é ser mais alto”.
Ao todo, são vinte os poetas presentes na iniciativa “deixa que os meus olhos te leiam”, uma ideia da Biblioteca Municipal que recupera escritos de mulheres e homens de tempos e origens diferentes, que ficam para a história da poesia pela capacidade que tiveram (ou têm) de dar novos significados às palavras. É uma proposta que promete mudar os dias de quem andar pela cidade entre 16 e 21 de março. Afinal, receber um postal poético na escola ou na viagem para o trabalho é ficar mais rico – e a melhor forma de se celebrar a poesia é partilhá-la, para que seja lida e sentida.
A iniciativa “deixa que os meus olhos te leiam” decorre em vários pontos de Lagos: Biblioteca Municipal, Centro Cultural e Museu Municipal, Câmara Municipal, escolas EB2,3 e secundárias, autocarros da rede de transportes públicos urbanos ONDA, hotéis e restaurantes. Conta com a participação de colaboradores municipais, comunidade educativa e agentes locais.
Do riso à reflexão
O Dia Mundial da Poesia, que se celebra a 21 de março, tem em Lagos outros dois momentos especiais. No dia 20, as Poetas do Avesso – Carla Moreira e Joana Espiñal – apresentam na Biblioteca Municipal a performance “Confissões de Estendal”, construída em torno de poemas eróticos, burlescos e satíricos.
São 45 minutos pensados para divertir o público através de poesia provocadora, mordaz, sedutora e rocambolesca. Trata-se de um espetáculo que mostra que a poesia também é contadora de outras histórias e trajetos, declama percursos aventureiros, divertidos e absurdamente bem escritos, desde os cancioneiros medievais aos autores românticos e modernistas, alguns deles anónimos, incluindo também poesia contemporânea de autores residentes no Algarve.
No dia 21 de março, também na Biblioteca Municipal, Karen David demonstra por que é que a poesia pode estar tão próxima de pessoas com contextos e histórias de vida diametralmente diferentes umas das outras. “Desverso” é um espetáculo de poesia falada que atravessa afetos, ruturas e reconstruções. Em cena, Karen David conduz o público por uma narrativa dividida em três tempos, a partir de três abandonos marcantes, em diferentes dimensões da vida, que, longe de a silenciar, a levaram para a escrita.
Entre o amor, a solidão e o recomeço, a poeta constrói uma travessia sensível e potente, onde cada perda se transforma em linguagem e cada ausência em possibilidade. Karen David é uma poeta e escritora brasileira, com atuação destacada na cena da poesia falada. Ganhou notoriedade em 2021 com o poema viral “Promete que vai ficar”. Vive em Portugal desde 2023.


