A Biblioteca Municipal de Lagos acolhe, no dia 22 de novembro, a sessão que fecha a edição de 2025 dos Encontros Diálogos do Sul. A iniciativa tem este ano como tema “50 anos das Independências dos Países Africanos de Língua Portuguesa: A minha, a tua e as nossas histórias”. Com moderação e curadoria de Fernanda Almeida, jornalista da RDP África, juntam-se três vidas diferentes e outras tantas perspectivas de um processo histórico que continua, cinco décadas depois, a ser marcado por fragilidades e distâncias. Contam-se histórias, fazem-se perguntas, deixam-se questões com respostas múltiplas, sendo que todas elas estão certas.
“É através destas histórias, do cruzar de testemunhos, que podemos chegar a alguma coisa, uma vez que temos uma história comum”, declara Fernanda Almeida. Os Diálogos do Sul fazem-se de muitos engenhos – cinema, artes plásticas, música –, mas a sessão de novembro vive em torno da escrita e de um momento histórico que, para muitos, ainda é sensível. “Quis trazer um tema que, às vezes, parece incómodo: falar das temáticas relacionadas com os retornados, com a descolonização.” Para a troca de ideias foram convidados Leopoldina Fekayamãle, de Angola, historiadora e professora de Literatura; o jornalista José Pedro Castanheira; e Marta Martins Silva, escritora e editora.
“A Marta Martins Silva tem como base dos seus livros o cenário da descolonização e dos retornados, com testemunhos de pessoas que estiveram lá ou que são africanas, portuguesas africanas, que voltaram e que têm ainda fortes ligações”, contextualiza Fernanda Almeida. “Conta histórias mais dramáticas, que achei interessante trazer.”
Já José Pedro Castanheira, “um dos grandes jornalistas que nós temos, prestigiado e premiado”, tem para partilhar uma bagagem de muitos anos de trabalho de investigação e de grande reportagem em torno de África e da descolonização.
Leopoldina Fekayamãle “é uma historiadora jovem, de 30 anos, africana, angolana, que pode dar o testemunho do que é pertencer a um país novo, uma Angola independente”, e falar sobre as expectativas que tem para o seu país.
“Estes três olhares são importantes para o nosso público e para daqui saírem diferentes expectativas sobre o que podem ser as nossas relações, a relação entre Portugal e África, e as ex-colónias. Estes três pontos de vista podem ser bastante interessantes”, afirma a moderadora.
Dar a volta ao texto
Cinco décadas depois, assuntos como colonização e descolonização podiam estar mais bem resolvidos? A cidadã e jornalista Fernanda Almeida, com quase 30 anos de trabalho em que África está no centro, acredita que sim. E por isso mesmo considera que ideias como os Diálogos do Sul são essenciais para que as pessoas se aproximem. Uma coisa é a relação política entre Estados; outra bem diferente são as pessoas que neles vivem. “Precisamos de nos ouvir”, declara.
“Todos têm a sua história. Precisamos de nos ouvir sem barreiras, sem atacar o próximo, e conhecermo-nos mais. Acho que não nos conhecemos – estamos um bocadinho metidos dentro das nossas memórias mais negativas e, às vezes, temos muita dificuldade em abrir a porta e convidar as pessoas para conversar, para nos ouvirmos. Daqui podem sair novas histórias, outro tipo de relações.”
Fernanda Almeida salienta o facto de o discurso vigente ser muito negativo, incluindo aquele que se produz por via do jornalismo. “É uma das questões que eu vou colocar ao José Pedro Castanheira: será que o jornalista também não tem responsabilidade de mostrar o que é Angola hoje, para além das coisas que não correram tão bem nestes 50 anos de independência? Ou o que é Moçambique?”, antecipa. “O que é que as pessoas conhecem da cultura angolana ou da cultura de outros países africanos? É por aí também que acho que devem ir estas conversas”, aponta.
Estas conversas organizadas por Lagos tiveram origem num outro encontro: Fernanda Almeida moderava um programa de literatura na Antena 1 – com as escritoras Inês Pedrosa, Patrícia Reis e Rita Ferro – e, a convite da Biblioteca Municipal, estiveram as quatro no espaço do município para uma conversa. Deste evento surgiu a vontade de se fazer outro, com regularidade, que permitisse ter África presente.
“As pessoas precisam de ouvir falar de África, não só a partir dos africanos, mas também de pessoas interessadas pelo Continente. E os Encontros vieram em boa hora, porque é necessário fazer essa conversa”, sublinha a moderadora dos Diálogos do Sul. É uma conversa que “ainda se faz pouco e é cada vez mais é necessária”.
