É a um religioso da Ordem de Santo Agostinho nascido no século XIV que Lagos deve o seu feriado municipal, várias inscrições toponímicas e a geminação com a cidade de Torres Vedras. Gonçalo (assim era a graça do beato a que todos chamam santo) nasceu em Lagos em 1360, tendo falecido em Torres Vedras em 1422. Em 1778, o Papa Pio VI autorizou o culto do “bem-aventurado” ou beato a Frei Gonçalo de Lagos.
Filho de um pescador, Gonçalo partiu ainda jovem para Lisboa, tendo estudado no Convento de Nossa Senhora da Graça. Foi lá que, seguindo a norma da época, ganhou o apelido pelo qual viria a ser conhecido. Ordenou-se sacerdote e terá sido autor de conceituados livros e obras musicais. Foi prior de vários conventos. Dono de qualidades intelectuais e artísticas de relevo, ficou para a história por outra razão: a bondade para com os mais desfavorecidos e a proteção que deu aos pescadores.
“Não sendo santo, porque nunca alcançou essa categoria, para a população local ganhou uma aura de santidade por causa da sua bondade”, recorda o historiador Artur de Jesus. “Notabilizou-se sobretudo por ser uma figura local e por ter esse caráter bondoso para com os mais desfavorecidos. São-lhe atribuídos milagres sobretudo em relação às gentes do mar.”
Há um milagre atribuído a São Gonçalo que junta mar e fome. O pai levava atum que pescava para casa e guardava-o numa arca de madeira. Gonçalo, ainda criança, “tinha o hábito de ir buscar bocados de atum para levar para as pessoas mais pobres que andavam pelas ruas”, conta Artur de Jesus. “Certo dia, o pai decidiu ver como estava a arca e o rapaz ficou cheio de medo mas, quando a abriu, o atum estava todo direitinho, como se nada tivesse acontecido.” É este o primeiro milagre atribuído a Gonçalo, recordado na estátua no Chão Queimado, em que o santo é retratado com atuns em seu redor.
Quanto a feitos milagrosos relacionados com o mar, reza a história popular que, 15 anos depois da morte de Gonçalo, um sobrinho seu saiu de Lagos a bordo de uma caravela com destino a Lisboa. Apanhada pela tempestade, a embarcação naufragou e apenas um marinheiro sobreviveu: o sobrinho do santo que, depois de implorar pela ajuda de Deus e do familiar santo, viu o tio na praia, a incentivá-lo a não desistir de nadar até à costa. Já a salvo, São Gonçalo ordenou-lhe que fosse rezar ao mosteiro onde estava sepultado e o sobrinho assim fez. Dormiu junto à sepultura do tio e acordou sem as feridas resultantes da luta contra o mar.
Um santo, duas cidades
A 27 de outubro, Dia do Município e feriado municipal, Lagos recorda São Gonçalo através de manifestações religiosas. Mas a cidade tem vários pontos que, durante todo o ano, evidenciam a importância do religioso para a cidade, desde logo o local onde terá nascido, nas Portas do Mar, e onde hoje se encontra o seu nicho e imagem.
“Trata-se de uma forte tradição popular e é precisamente por isso que foi revitalizada na década de 40 do século XX, pelos militares do Regimento de Infantaria n.o 4 que estavam aqui aquartelados na cidade. Fizeram a reconstrução do sítio onde se crê que ele tenha nascido”, explica Artur de Jesus. Não há certezas históricas sobre o facto, mas certo é que o local se chama Arco de São Gonçalo e ali se encontra um oratório. Já na Igreja de Santa Maria existe uma imagem do século XVIII que é referente a São Gonçalo.
Estando sepultado em Torres Vedras, onde era prior do convento de Nossa Senhora da Graça à data da morte, Gonçalo de Lagos foi defensor e padroeiro do último sítio onde viveu durante vários séculos, por indicação do Rei D. João II, que também determinou que Lagos venerasse o santo filho da terra.

