É uma instalação que junta escultura, pintura, videoprojeção e som, da autoria da artista multidisciplinar Dora Vieira. Por estes dias, e até 28 de fevereiro, é possível ver no Laboratório de Actividades Criativas (LAC) o trabalho “Homúnculo”, uma manifestação artística que desafia os sentidos e convida à reflexão sobre os corpos – os naturais e aqueles que aspiram à transcendência.
O fascínio de Dora Vieira por “matérias viscerais” vem de longe e está ligado a um certo universo cinematográfico. Foi, de resto, na produção de próteses para cinema que aprendeu a trabalhar com látex. “A partir daí fiquei ainda mais fascinada com o universo das criações humanas artificiais e comecei a desenvolver formas de trazer esse universo, que vem do cinema, para o das belas-artes”, refere.
Na investigação que desenvolveu para criar a instalação, a artista começou por estudar a história ficcional e real das alterações corporais, e do desejo que o ser humano tem de transcender e de alterar a sua própria humanidade. “Referenciei Frankenstein, filmes ainda mais antigos e a clonagem, até chegar a esta altura, ao paradigma em que nos encontramos agora: a tecnologia, e as partes sintéticas e artificiais do corpo humano estarem cada vez mais passíveis de se integrar no nosso corpo humano.”
Este paradigma levou Dora Vieira a pensar no ser humano “num contexto de fisicalidade”. As peças que constituem “Homúnculo” são, assim, “uma reflexão sobre o que é o corpo humano, biologicamente, e até que ponto é que a matéria sintética pode adquirir uma vida e uma fisicalidade próprias, e despojar o corpo humano de vitalidade”. A instalação joga com “a dicotomia entre a matéria sintética estar viva e o corpo humano estar inerte”.
O conjunto de espécimenes de epiderme sintética moldados em silicone pintado, criados a partir da amostragem, síntese e morphing de imagens da pele da artista, convida ao toque. Há “uma componente muito física, muito no sentido do tato”, pelo que “muitas pessoas têm tendência para perguntar se podem tocar e algumas experimentam mesmo fazê-lo, porque existe essa proximidade que tentei construir para que as peças sejam uma coisa muito próxima da nossa fisicalidade”, afirma.
Nascida em Barcelos em 1991, Dora Vieira licenciou-se em Multimédia – Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes do Porto, cidade onde iniciou a sua criação artística e musical, áreas em que continua a produzir ativamente. Membro do duo experimental Bezbog e do ensemble Milteto, é trompetista em Amijas e atua a solo como Moira. O tempo tem-lhe permitido perceber a ligação entre as diferentes artes que pratica. “A oportunidade de construir instalações permite-me trabalhar o lado do som, o que é ajudado pela experiência ao nível musical. Há certas ambiências e conceitos que permeiam os dois campos.” A apresentação de “Homúnculo” no LAC resulta da parceria da associação de Lagos com a GNRation, de Braga, no âmbito da RPAC – Rede Portuguesa de Arte Contemporânea.



