“Killer Joe” | O Texas aqui tão perto
“Killer Joe” | O Texas aqui tão perto

“Killer Joe” | O Texas
aqui tão perto

Os Smith são uma família rural norte-americana do Texas. Chris é um jovem com um plano; vive numa autocaravana com o pai Ansel, a madrasta Sharla e a irmã mais nova, Dottie. Lidam com uma situação financeira delicada e, numa tentativa de dar a volta ao texto, contratam um assassino profissional, Joe Cooper, para assassinar a ex-mulher de Ansel e ficarem com o dinheiro do seguro de vida.

Está dado o tiro de partida para “Killer Joe”, texto escrito em 1993 por Tracy Letts, que o grupo Urso Pardo decidiu recuperar. A peça foi adaptada para o cinema e o encenador Miguel Graça viu o filme. Foi à procura do texto original para encontrar as diferenças e assim nasceu o projeto que, depois de ter sido estreado em junho passado no Teatro São Luiz, é apresentado no Centro Cultural de Lagos a 24 de janeiro.

Quem for ao Auditório Duval Pestana “vai ver uma história muito bem contada e muito bem representada por cinco atores incríveis – Dinarte Branco, Inês Pereira, Pedro Caeiro, David Esteves e Madalena Almeida”, promete Miguel Graça. A linguagem é própria do teatro americano, “muito naturalista”.

“É uma peça muito crua, muito pouco ‘intelectual’ no sentido em que não há espaço para uma reflexão individual das personagens”, explica. “A reflexão é feita pelo espetador em termos coletivos, depois de ver os acontecimentos que são expostos à frente dele.” O espetáculo é realista, com fortes semelhanças à vida. “É um teatro mais violento também”, avisa Miguel Graça, “que desperta o interesse dos espetadores que o vão ver”, com características que se afastam do conceito mais clássico e recitativo do teatro.

Apesar de “Killer Joe” contar com mais de três décadas de existência, o texto é pertinentemente atual. O Texas deixou de estar apenas no Texas e a família Smith poderia ter hoje outro apelido, porque dela é feito um retrato que já não está circunscrito a um estado norte-americano, nem sequer a um país.

“Esta família traduz um pouco daquilo que é a nossa alienação”, entende o encenador. Em 1993, não havia Internet ou redes sociais, mas a televisão “funcionava mais ou menos da mesma maneira, como um lugar de escape, de fuga da realidade”. “Esse lugar de fuga é um lugar de desinformação também.” A alienação e a aflição de se viver com dificuldades financeiras têm como consequência a perda da “noção de moralidade e ética”.

Na peça, luta-se para se sair do ponto onde se está. “O problema é que é muito difícil sairmos de onde estamos e, por isso, às vezes as soluções são muito violentas e são sinónimo de desespero.” Muitos anos depois, este modo de sobrevivência é também uma realidade em Portugal: não faz parte do nosso quotidiano contratar assassinos profissionais, mas há uma certa forma de estar que se “traduz em escolhas populistas, em ideias que há trinta anos já existiam nos Estados Unidos e que hoje começam a ser moeda comum em Portugal”, declara.

Neste contexto, é cada vez mais importante o teatro afirmar-se como instrumento ao serviço do pensamento? Miguel Graça não hesita: “Sim, acho que não só o teatro, mas a arte em geral. O teatro é uma arte que engloba muitas – literatura, movimento, música”.

O encenador contrapõe peças como “Killer Joe” à tendência de se apresentar ao público “o trabalho de casa já feito, com uma espécie de lição de moral” incluída. “Esta peça é muito inteligente nesse aspeto. Não faz juízos de valor sobre as personagens, deixa que o público o faça.” A metáfora que a peça transporta permite perceber “como é que uma história tão distante da nossa vida acaba por se transformar noutra coisa, que tem sobretudo que ver com o nosso desespero, e como as nossas ações podem concretizar-se em algo completamente contrário à nossa natureza”.

O espetáculo do Urso Pardo conta uma história sem rodeios; a reflexão faz-se no caminho para casa.

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