Lagos na história | O cardeal que casou reis e acabou no exílio
Lagos na história | O cardeal que casou reis e acabou no exílio

Lagos na história |
O cardeal que casou reis
e acabou no exílio

Foi o único religioso natural de Lagos a comandar os destinos do Patriarcado de Lisboa e ficou para a história como um homem em luta contra o seu tempo. João Sebastião de Almeida Neto notabilizou-se por ter sido o 12.o cardeal-patriarca de Lisboa. “Era conhecido pela sua humildade, por ser observador, prudente, piedoso e zeloso no âmbito do seu desempenho pessoal e eclesiástico”, conta o historiador Artur de Jesus. Viu-se, porém, envolvido “nalgumas polémicas”, numa altura de profundas transformações na relação entre Igreja, Estado e sociedade.

Nascido em 1841, “estudante empenhado”, frequentou o Seminário de Faro em 1855 e recebeu ordens menores em 1861; dois anos depois, foi feito diácono. Em 1865 já era sacerdote e foi pároco de Boliqueime, no concelho de Loulé, em 1873. Volvido um par de anos, ingressou na Ordem de São Francisco, no Convento do Varatojo, perto de Torres Vedras.

A vida conventual do frade franciscano foi interrompida pela nomeação para um destino distante: em 1879, passou a ser o bispo de Angola e do Congo. “Foi para uma das mais importantes possessões ultramarinas de Portugal e preocupou-se com melhorias na situação religiosa da sua diocese”, diz Artur de Jesus. “Chegou a abrir um seminário na sua própria casa que, depois, foi transferido para a província de Huíla. Preocupou-se em aumentar o número de sacerdotes no território, fundou missões, visitou o território sob a sua alçada e ficou também na história por ter assinado o regulamento do registo civil de Angola.”

Foi em África que sentiu os primeiros problemas de gestão e foi de lá que chegou o primeiro pedido de renúncia por ele feito. “Confrontado com um ambiente de indiferença para com a religião e também para com as más condições sociais de parte importante das populações, apresentou um pedido de renúncia ao bispado em 1882.” Um ano depois, já de regresso a Portugal, foi nomeado cardeal-patriarca de Lisboa.

À liderança do Patriarcado da capital juntaram-se outras funções, entre elas a de capelão da Casa Real. D. José de Almeida Neto (também conhecido por D. José III) celebrou o casamento do então príncipe D. Carlos e da futura rainha D. Amélia e presidiu ao funeral do Rei D. Luís I. Responsável pela formação religiosa dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel, celebrou o matrimónio do último rei de Portugal, em Sigmaringen, já depois da implantação da República.

“Enquanto cardeal-patriarca, deu uma atenção especial ao estado do Clero e à sua formação. Procurou que o Clero fosse mais cuidadoso nas suas funções, enfrentou resistências e criou o hábito de haver reuniões episcopais anuais”, explica o historiador. “Foi um defensor das causas religiosas e da melhoria do ensino eclesiástico, e sobretudo do exercício das funções episcopais, num período em que, em Portugal, havia um anticlericalismo bastante feroz e em que a sociedade se foi desligando da vida religiosa.”

Do Patriarcado ao exílio

D. José de Almeida Neto não era um burocrata. “O seu desânimo foi crescendo ao longo do exercício das suas funções” e, em 1904, pediu a demissão, uma pretensão que não se concretizou e que lhe trouxe alguns dissabores. Três anos depois, voltou a solicitar a renúncia.

Artur de Jesus cita uma carta do cardeal-patriarca ao Núncio Apostólico, o representante da Santa Sé em Portugal: “Sim, Excelentíssimo Senhor, será decerto uma das maiores consolações do retiro o ver-me livre da carga que sobre mim pesa há 24 anos. Isto só serve para quem gosta. Eu é que nunca me acomodei a este modo de vida e, se não fosse o receio de desobedecer ao Supremo Pastor da Igreja, já há muito teria fugido”. A missiva é demonstrativa das dificuldades sentidas por D. José III.

Apesar do “seu bom caráter e da sua boa vontade, alguma imprensa da época e pessoas próximas dele acusaram-no de não aproveitar o que o cargo lhe proporcionava para ser mais interventivo na Igreja e na sociedade”. A polémica em torno da forma titubeante como geriu os pedidos de renúncia provocou “um divórcio entre ele e uma parte do Clero”. “O primeiro-ministro João Franco vai aproveitar a situação para tentar intervir na esfera religiosa e colocar bispos que fossem favoráveis ao Governo nas respetivas dioceses. O próprio Governo ‘cozinha’ com a Santa Sé a substituição de D. José de Almeida Neto, uma situação que o agastou.”

No entanto, o pior estaria ainda por vir. Na sequência da implantação da República, em 1910, foi preso. Saiu de Portugal, passou por Badajoz e estabeleceu-se definitivamente na Galiza, no Convento de Vilarinho da Ramalhosa, onde faleceu em 1920. Em 1928, os seus restos mortais foram transladados para São Vicente de Fora, em Lisboa, onde ainda hoje se encontram, no Panteão dos Cardeais-Patriarcas.

“Era uma pessoa simples, um franciscano”, resume o historiador. “Quis ser sepultado com o hábito de São Francisco. Não se sentia à-vontade com as honrarias e com as questões administrativas da Igreja.” Homem de ação, conhecido no convento franciscano onde se fez frade como “Frei José dos Corações”, viveu num tempo difícil de grandes e decisivas mudanças em Portugal, em que o Clero perdeu poder para um Estado que se tornou laico.

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