O Centro Cultural de Lagos (CCL) recebe no próximo dia 24 de outubro o projeto Esta noite grita-se, um festim de leituras teatrais que vai já na 9.a edição, da responsabilidade da Companhia Cepa Torta. A leitura de “O Senhor Biedermann e os Incendiários”, texto de Max Frisch com tradução de Jorge Silva Melo, é uma forma de assinalar o aniversário do CCL, que abriu portas a 24 de outubro de 1992.
Esta comemoração faz-se com a arte no estado mais puro, no estado inicial. Em Esta noite grita-se, em que o teatro está no princípio de tudo, não se vai ao teatro; não existem cenários ou figurinos, nem tampouco encenador. O que ali se encontra, naquele palco, são atores que gostam de ler textos escritos para teatro e, através das leituras, contam histórias a quem os for ver, dando liberdade para se imaginar tudo o resto.
Miguel Maia e Filipe Abreu são os mentores e diretores deste festim, que “começou de forma muito informal”. Na escola de teatro lê-se em voz alta e, conta Filipe Abreu,“era incrivelmente mais interessante ler em conjunto as peças de teatro que a maior parte das pessoas de teatro gosta de ler”. Estava encontrada a inspiração para o projeto, que arrancou com convites feitos “a amigos e a algumas pessoas que não eram nossas amigas, mas que tínhamos curiosidade em conhecer e em trabalhar com elas”. “Começou mesmo de forma muito simples, a passar o chapéu, com donativos do público no fim, em bares…”, ri-se.
Filipe Abreu não imaginava, então, que um dia se chegaria à nona temporada ou, noutra contabilidade, a leituras que vão já perto da meia centena. Mas confirmou logo que quem ia ler gostava daqueles momentos e descobriu que o público também. “Dizer que se gosta é sempre muito bonito, mas potencialmente duvidável – mas o público voltava e vinha ver a leitura seguinte, e a leitura seguinte.” Foi esta reação que “deu força para continuar e para estruturar este projeto, que foi ganhando cada vez mais corpo e forma, e continuar a ler”.
Quem for assistir às leituras deste festim encontra informalidade. “Trabalhamos para fazer a melhor leitura possível dentro de um tempo limitado e escolhemos nunca aumentar esse tempo de ensaios: ensaiamos três vezes”, explica o diretor. “Ao jogarmos com a leitura ao vivo, conseguimos apresentar aquilo que muitas vezes apelidamos de ‘leitura em carne viva’. Vemos as coisas a aparecerem, vemos os intérpretes a descobrirem os textos também”, o que se traduz em espontaneidade.
Cria-se um “contexto diferente”, porque se destrói “o invólucro do espetáculo, da espetacularidade” e a leitura passa a ser “uma partilha intimista”, diz Filipe Abreu. “Já tivemos casos de pessoas que vieram ter connosco e contaram que já tinham visto aquela peça, num espetáculo, e gostaram muito mais de assistir à leitura porque conseguiram descobrir muitas mais coisas e coisas diferentes, com um tempo diferente, e com uma atenção e dedicação diferentes.”
O teatro no feminino
Não existe um fio condutor nas obras escolhidas, apesar de já ter sido feita uma tentativa nesse sentido. “Abandonámos a ideia da curadoria como uma linha condutora e passámos simplesmente a querer ler textos de que gostamos e que fazem sentido no momento, e fazer um equilíbrio também entre obras mais clássicas e outras mais contemporâneas.” O Esta noite grita-se voltou à liberdade inicial – o interesse em ler obras, o contexto e o equilíbrio entre as peças ao longo da temporada – sendo que se adicionaram novos elementos. Entre eles está o Prémio de Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, atribuído pela quinta vez este ano, e que teve como vencedora Sabrina Marthendal, com o texto “Pedral”. Vai ser lido também em Lagos, a 12 de dezembro.
Quanto a “O Senhor Biedermann e os Incendiários” é uma mordaz caricatura dos valores instalados na sociedade burguesa. O comerciante Biedermann, convicto defensor do status quo e do seu posto social, vive com a esposa e a criada numa cidade alarmada por diversos incêndios que têm consumido prédios e bairros inteiros. Certo dia, recebe a visita de dois estranhos homens que, insidiosamente, se vão instalando no sótão de sua casa, perante a incredulidade do anfitrião, preso num labirinto de ingenuidade e condescendência patriarcal. É um texto singular do autor suíço do pós-guerra, que viria a publicar mais tarde um epílogo para a edição alemã, motivado pela reação do público suíço, que terá visto na peça um alarme anti-comunista. O epílogo, em jeito de sequela, retrata um inferno em greve por excesso de arraia-miúda, enquanto o céu concede indultos aos poderosos — e serve para sublinhar ainda mais a originalidade e a relevância do texto principal.
Além de “O Senhor Biedermann e os Incendiários” e de “Pedral”, no Centro Cultural de Lagos faz-se a leitura de “O Barrete de Guizos”, de Luigi Pirandello, a 21 de novembro.


