ROOTS | Da desconstrução de mitos e tabus
ROOTS | Da desconstrução de mitos e tabus

ROOTS | Da desconstrução de mitos e tabus

Houve um tempo em que os Descobrimentos eram a inquestionável glória do povo português. Depois chegaram os dias em que falar de Expansão Marítima passou a ser um assunto delicado, quase interdito. Porque a escravatura clássica existiu e, com ela, se arrancaram raízes para se criarem outras, noutros sítios, o Laboratório de Actividades Criativas (LAC) de Lagos decidiu, em 2011, lançar o projeto ROOTS. É uma residência que vai muito além do encontro entre artistas: há cinema, palestras, encontros e ideias para debater.

“O ROOTS pretende abordar o tema da escravatura através de uma visão contemporânea, criando novas rotas e fluxos culturais, pela reflexão e diversidade cultural, entre países que, de alguma forma, foram afetados pela questão da escravatura, no sentido clássico, e que foram colonizadores e colonizados”, resume Nuno Pereira, presidente do LAC.

O projeto teve início na sequência da descoberta de mais de 150 esqueletos de antigos escravos no Vale da Gafaria. A realidade esclavagista foi então o ponto de partida para os artistas convidados desenvolverem o seu trabalho. Mas a escravatura vai além do entendimento clássico: hoje ganhou novos significados e manifesta-se de múltiplas formas.

“Recentemente, decidimos trazer também para a mesa questões da contemporaneidade”, explica Nuno Pereira. “Já não é só a questão clássica da escravatura, mas a contemporânea, a questão da igualdade de género, a condição humana e o ambiente”, elenca, acrescentando que “o projeto é suficientemente aberto a várias interpretações porque remete para o significado original da palavra root, quer no sentido de raízes ancestrais, quer no sentido da moldagem dessas mesmas raízes e a influência que poderá ter nas sucessivas gerações”.

Para a residência artística deste ano, que se rege pelo tema “Migrações, Identidade e Transculturalidade”, com a curadoria a cargo de Patrícia Leal e Francisco Vidal, foram convidados os artistas Sara Braga, Amadeo Carvalho, Marilú Mmaapengo Námoda e Modou Dieng Yacine. São eles que a partir do dia 9 de novembro vão criar obras que poderão ser vistas no dia 22 no LAC, numa exposição que depois vai percorrer o país no âmbito das parcerias do Laboratório de Actividades Criativas. Nuno Pereira acrescenta que a residência artística “vai dar ainda conteúdo às ações de mediação com a comunidade em geral e, depois, com as escolas em particular”.

Ideias e batuques

“O ROOTS não é só uma residência artística”, declara o presidente do LAC, chamando a atenção para as palestras que se vão realizar, “uma das componentes importantes” e oportunidade para se debaterem questões relacionadas com escravatura e migrações. “Este projeto tem uma parceria com o Museu de Lagos, uma parte teórica assegurada por historiadores, arqueólogos e técnicos da Câmara Municipal”, indica o responsável do LAC. A conferência “O Meu Lugar: Tantos Lugares para um Lar” está agendada para o dia 15, no Museu Municipal.

Da extensa programação, Nuno Pereira destaca também a exposição “Narrativas Paralelas”, para “trazer à mesa a desconstrução da mitologia dos Descobrimentos, com artistas para falar sobre obras que temos em acervo ou de outros artistas que já cá estiveram”.

O ROOTS inclui ainda quatro ciclos de cinema, em diferentes pontos da cidade, e um showcooking com o conhecido chef João Carlos Silva, de São Tomé, bem como música e ritmo com as Batucadeiras Boa Esperança. O grupo foi fundado há mais de 25 anos em Loulé e é um exemplo que resume a essência deste evento: começou como um grupo de mulheres cabo-verdianas e ganhou raízes. É hoje constituído por 22 elementos de várias nacionalidades: mulheres cabo-verdianas, santomenses e portuguesas.

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