Rui Sanches | A escultura no espaço e no corpo
Rui Sanches | A escultura no espaço e no corpo

Rui Sanches | A escultura no espaço e no corpo

O Centro Cultural de Lagos acolhe, até ao dia 4 de abril, a exposição “Linha e mancha, corpo e máquina”, que reúne obras de escultura e desenho representativas de três décadas de trabalho de Rui Sanches. Nascido em Lisboa em 1954, o artista desenvolve, desde o início dos anos 1980, um dos percursos mais significativos do panorama da escultura portuguesa. O conjunto agora apresentado integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção de Serralves.

Rui Sanches pertence à geração que viveu o 25 de Abril de 1974, contextualiza Carlos Magalhães, curador da exposição. Apesar de não ter estado no exílio antes da Revolução dos Cravos, como outros artistas portugueses, saiu de Portugal para também ele regressar com “um conhecimento internacional”. Depois de uma passagem pelo curso de Medicina, esteve no Ar.Co, em Lisboa, tendo em seguida rumado a Londres.

Na Goldsmiths, “foram três anos muito intensos, a descobrir coisas que nunca tinha visto, a perceber o que se estava a passar na arte contemporânea, de que tinha uma ideia muito vaga – havia pouca coisa que chegava a Lisboa”, conta Rui Sanches em entrevista publicada na brochura da exposição. “O período em Londres foi muito importante como abrir de olhos, permitiu-me fazer muitas experiências, deixar a pintura e experimentar outros meios.” De Londres foi para Yale, nos Estados Unidos, uma “universidade fantástica” e de “ensino muito livre”.

Portugal era um país fechado em relação à arte antes do 25 de Abril, sublinha Carlos Magalhães. “Houve uma necessidade de ter contacto e uma aproximação às artes dos outros países.” Com novas experiências na bagagem, quando regressa a Lisboa “é uma influência gigante pelo facto de ter estas experiências no Reino Unido e na América”, efeito esse que se sente também nas gerações que viriam a seguir. E “tem uma prática bastante singular”, afirma o curador. “É, por isso, uma figura de grande peso na cultura e nas práticas artísticas portuguesas.”

A singularidade da obra de Rui Sanches assenta em várias perspetivas, desde logo pelo facto de ter “uma relação muito importante com a materialidade”. “Há um entendimento profundíssimo sobre a arte neoclássica, na qual o artista se baseia, mas que acaba por transformar na sua identidade e no seu próprio estilo, em questões formais e contextuais da sua escultura. As suas obras acabam por ser muito diferenciadas”, aponta Carlos Magalhães.

A prática de Rui Sanches é ainda marcada pela relação com a arquitetura e os espaços urbanos. “As suas esculturas e instalações fazem muitas vezes referência à cidade, à construção de ambientes urbanos”, indica, dando como exemplo o contraplacado, material que o escultor utiliza (uma consequência direta do tempo nos Estados Unidos). “Interessava-lhe fazer esculturas com material que já era processado.” O artista não dá prioridade aos materiais considerados nobres na escultura, num processo de “transformação e renovação”. Em Lagos, está exposta a Figura 1, onde é possível ver um elemento central em bronze que está, porém, dissimulado. “O público vê uma massa branca, como se fosse gesso, e não o bronze, que teria um destaque predominante. Há uma inversão do processo.”

Outro “grande momento transversal da prática” de Rui Sanches é “o uso da geometria e das formas abstratas”. Linhas, ângulos e volumes são trabalhados “criando composições escultóricas que exploram as relações formais entre os vários elementos e também o próprio visitante”, que desempenha um papel importante. A escultura do artista “existe não só na relação com o espaço, mas também com o público que estiver no espaço a vê-la”. “O corpo do público – bastante efémero e mutável – acaba também por influenciar a maneira como a obra é vista e interpretada”, assinala Carlos Magalhães. Nas palavras do artista, “a escultura passa a ser uma espécie de interlocutor do espectador, que tem o seu próprio corpo, a sua própria fisicalidade”. “Há um diálogo entre o corpo do espectador e a escultura, que tem o efeito de espelho e nos dá a noção da nossa própria escala — sentimos o nosso próprio corpo”, declara Rui Sanches.

A cultura mais perto

Centrada na arte contemporânea desde os anos 1960 até à atualidade, a Coleção de Serralves tem vindo a ser partilhada com públicos diversos através de um programa de itinerâncias planeado em colaboração com as Autarquias Fundadoras de Serralves. Com a iniciativa pretende-se promover a descentralização e democratização do acesso à cultura, uma prática que em Portugal tem vindo a crescer – também como consequência do exemplo de Serralves –, mas que, para Carlos Magalhães, precisa ainda de ser reforçada. 

Quanto a Serralves, o curador entende que a disponibilização da coleção para outros públicos reveste-se de particular importância: “Só assim conseguimos que exista um olhar atento e um interesse pela cultura”. A fundação do Porto é “uma coleção de coleções”, com obras privadas e obras públicas, e “este programa de itinerâncias cria mecanismos e oportunidades de pôr estas diferentes obras em diálogo umas com as outras fora da instituição”.

“Em vez de termos estas obras anos fechadas no acervo, o programa permite que sejam apresentadas. Dá-se visibilidade à coleção e transmitem-se conhecimentos”, acrescenta Carlos Magalhães, salientando que as iniciativas de Serralves são acompanhadas por um programa educativo que inclui atividades para diferentes públicos, como visitas orientadas, oficinas para famílias e ações de formação para educadores e professores.

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