Ainda os Romanos por cá andavam e já se bebia vinho no Algarve. Ao longo dos anos, foram sendo encontradas ânforas que tinham como função o transporte do néctar dos deuses – que eram, à época, andaluzes e italianos. O vinho está presente desde sempre em terras algarvias, ainda que não seja o principal atributo associado à região.
É sobre o Algarve, Lagos e o vinho que se vai falar no próximo dia 28, na Biblioteca Municipal de Lagos, numa palestra seguida de visita guiada. O objetivo, explica o historiador Artur de Jesus, é dar a conhecer um elemento cultural desde sempre presente no território. Para a sessão foi convidado Hélder Nogueira, da Câmara Municipal de Lagoa.
“O vinho faz parte da nossa cultura, da vida das pessoas, não só das elites, mas de toda a gente, uma vez que atravessa todas as camadas sociais. Isso é indiscutível.” Ao consumo “mais erudito do” vinho, junta-se o do dia-a-dia, diz Artur de Jesus. “Nos tempos antigos, em tabernas, em festas populares e noutras manifestações culturais locais que existiam, sempre se bebeu vinho. Teve sempre uma presença muito forte no nosso território, não só em Lagos, mas em todo o Algarve.”
Os vestígios da presença de vinho encontram-se nas tais ânforas romanas e, mais tarde, na Idade Média, na documentação crescente a partir do momento em que o Algarve passou a integrar Portugal. O vinho, então, já não vinha de longe. “Sobretudo a partir do século XV, temos informações documentais da presença de vinha na paisagem de Lagos, nomeadamente na zona do Paul”, conta o historiador. Dois séculos mais tarde, a cartografia militar indicava a presença de figueirais e de vinha na zona da Meia Praia.
O vinho estava espalhado um pouco por todo o concelho. “Temos em Espiche ainda hoje produtores de vinho, mas com raízes já bastante antigas. A zona da Vila da Luz e da Torralta também tinham uma presença forte de vinha.” Os vestígios de uma atividade outrora muito dinâmica estão também na toponímia. O historiador exemplifica com a Vinha Velha em Barão de São João.
A partir de 1954, Lagos passou a ter uma adega cooperativa que representava os produtores locais e também os vizinhos de Vila do Bispo e de Aljezur. A estrutura já não existe: fundiu-se com a adega de Lagoa, a única que representa os vinhos desta região do Algarve.
Casta às cores
A vinha esteve presente na vida de muitas pessoas no concelho de Lagos, “é memória histórica e cultural” de uma época dourada que conheceu um retrocesso. Porém, o cenário tem estado a alterar-se, com um interesse ressuscitado por parte de alguns produtores.
“Há vários pontos do concelho com produção de vinho. É para nós um motivo de satisfação que haja uma aposta nesta vertente, e que se tente revitalizar uma tradição que faz parte do caráter e da identidade de Lagos”, diz Artur de Jesus.
De entre as castas que se encontram no Algarve, destaque para a Negra Mole, que contribui para a nova dinâmica que a região tem estado a viver. “É uma casta importantíssima aqui na nossa zona e é menos conhecida.” Com cachos de uvas de diferentes cores é, dizem os especialistas, a que maior riqueza varietal tem entre as vinhas velhas de Portugal. A razão tem que ver com a tradição: são séculos de cultura de vinho na região. Depois da Cercial, a Negra Mole é a segunda casta mais antiga do país. E vive no Algarve.
