Uma história a caminho dos 100 anos
Uma história a caminho dos 100 anos

Uma história a caminho dos 100 anos

O que acontece quando se junta vontade, teimosia, o conhecimento de diversas disciplinas artísticas, o interesse pela história e pela arqueologia, e a generosidade que leva à partilha do que se sabe e do que se tem? No caso de Lagos, aconteceu um museu, que este ano assinala 95 anos de vida, mas a pensar já no centenário.

Criado em 1930 por José Formosinho, o Museu de Lagos – que hoje agrega vários núcleos, tendo como principal aquele que foi buscar o nome ao seu patrono – encerra uma história dentro da história. Foi criado por um homem da terra que, depois do curso de Direito em Coimbra, regressou ao sul. “Era notário, jurista, mas tinha uma formação muito mais vasta”, conta Elena Morán, chefe de Divisão de Museus e Bens Culturais da Câmara Municipal de Lagos.

“O Dr. Formosinho tinha uma vocação especial para juntar um pouco de tudo o que fosse representativo da história antiga com aspetos mais atuais que permitissem formar as pessoas que não tinham acesso ao ensino. A componente educativa era realmente o seu objetivo”, sublinha. A meta foi alcançada através das investigações e campanhas arqueológicas que levou a cabo, da troca de experiências e dos objetos que conseguiu para o Museu, “para ir contando e completando a história, uma história que é mais localizada no Barlavento, mas que nos permite também fazer uma viagem pela história de Portugal”.

A visão de José Formosinho “cumpria já todos os fundamentos da museologia” e foi capaz de “transmitir esses valores” aos seus sucessores. “Hoje temos outras ferramentas, mas a nossa perspetiva, na realidade, não difere em muito da que teve o Dr. Formosinho. Pautamo-nos por parâmetros de investigar, conservar, educar e comunicar, e ele já tinha toda esta perspetiva. Somos os continuadores daquela história que ele iniciou.”

O núcleo sede foi alvo de uma profunda intervenção e reabriu ao público em 2021. Elena Morán diz que a equipa se sente orgulhosa porque quem conheceu o museu antigo e hoje entra na estrutura renovada é capaz de identificar o passado.

Em contagem decrescente para o 100.º aniversário, a responsável espera que até lá seja possível ter a ampliação do Museu concluída. O núcleo museológico compreende a Igreja de Santo António (uma autêntica joia da talha dourada barroca em Portugal) e distribui-se ainda por dois imóveis: um localizado entre a igreja e a muralha da Cerca Velha, onde estão expostos os acervos posteriores a 1460, data da morte do Infante, e as Coleções Especiais; e outro na antiga esquadra da PSP, atualmente em obras de alteração e ampliação, que vai albergar o acervo arqueológico até 1460.

Da pintura à terra

Entrar no Museu é fazer uma viagem. “Criámos uma narrativa a partir do acervo do museu, o que muitas vezes não se faz, porque o normal é construir uma narrativa e, depois, procurar peças para ilustrar essa história”, explica Elena Morán. O processo em Lagos permitiu ainda ter um espaço em que “as peças podem respirar” e é acessível a pessoas com mobilidade condicionada, cegas, surdas e neurodivergentes. 

Com um vasto acervo – incluindo, por exemplo, uma coleção científica de peças raras e únicas, muitas vezes bizarras, organizadas no Gabinete de Curiosidades –, não é fácil eleger a obra-prima do Museu. Existem dois incontornáveis quadros do século XVI do pintor Francisco de Campos. Mas há uma peça, única em Portugal, que merece o destaque pessoal de Elena Morán.

“Como arqueóloga, aconselho a olhar para a única carotte que existe em Portugal devidamente inserida numa narrativa museológica, uma amostra geo-arqueológica que extraímos na entrada de Lagos, junto à Ponte D. Maria.” Trata-se de “uma peça em que se pode observar uma sequência de sedimentos”, que revela vestígios palpáveis de uma parte fundamental da história da cidade e de Portugal: o Terramoto de 1755. “O terramoto aconteceu a escassa distância de Sagres, mas é conhecido internacionalmente como o Terramoto de Lisboa porque arrasou Lisboa. Na realidade arrasou o sul, o Algarve, até Cádis. O impacto que teve em Lagos foibrutal – e Lagos não se irá recuperar até à contemporaneidade, com o início do turismo.” 

Entre o passado e o presente, o Museu de Lagos apostou recentemente numa plataforma digital, que “tem correspondido às expectativas, com uma reação muito positiva”. Na sequência do acesso à base de dados (em constante crescimento), têm sido muitos os pedidos de consulta de pessoas que, tal como José Formosinho, sabem que em Lagos há muita história para conhecer.

Fotografias: Museu de Lagos | J. Vicente

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